Meiofim, o projecto experimental de Pedro Barreiros, regressa meses depois de “Luscofo” e “Unda” com dois temas novos. “Camagon” já está disponível no YouTube e Bandcamp, e “Nogamac” – o título invertido, o reverso sonoro – surge em exclusivo para o musica.com.pt no YouTube, formando um díptico que podia ser uma só faixa mas seria demasiado longa e desconjuntada para existir assim.
Os dois temas partilham a mesma origem e impulso criativo, mas seguem caminhos distintos: “Camagon” aposta na diversidade de texturas, “Nogamac” na repetição e na agressividade. Pelo meio, a voz de Pedro Barreiros aparece a falar, processada, distorcida, revertida, quase como um mantra feito de palavras soltas que nos acolhe no caos.

Camagon: colisões que fazem sentido
“Camagon” distingue-se pela diversidade. Quem ouviu os singles anteriores do Meiofim vai reconhecer o território – sintetizadores processados até à irreconhecibilidade, samples cortados e filtrados, camadas de distorção e delay que constroem paisagens densas – mas há aqui um corpo diferente. Uma batida que se aproxima do quatro-por-quatro sem se acomodar nessa grelha. Texturas mais minimais que em “Luscofo” ou “Unda“, mas que colidem e coexistem dentro do mesmo espaço. A voz de Pedro Barreiros entra e sai, por vezes audível, por vezes apenas som, no fundo mais uma peça no puzzle, tão instrumento quanto as máquinas que a rodeiam.
As palavras vêm de um impulso antigo: rabiscos de poemas, letras, fragmentos entre jogo e conceito. Quando o texto não resulta enquanto discurso, é manipulado até restar apenas a sua sombra sonora. Em “Camagon“, essa abordagem cria tensão entre o dito e o indizível, entre a comunicação e o ruído puro. Deixamos o tema em baixo para ouvires.
Nogamac: o lado agressivo do espelho
“Nogamac” é “Camagon” ao contrário, no nome e na atitude. Se em “Camagon” a palavra-chave é diversidade textural, aqui o motor é a repetição e a agressividade. O breakbeat e os contratempos substituem a estrutura mais linear do primeiro tema, a distorção domina com menos cedências, os delays multiplicam-se sem pedir tréguas. A voz está lá também, igualmente desfigurada, a ocupar o seu espaço sem reclamar protagonismo, mas sempre presente quando existe.
Os dois temas nasceram do mesmo impulso criativo, e a escuta sequencial revela um arco que nenhum dos dois consegue sozinho. “Nogamac” é o lado mais confrontacional desse arco: menos paciente, mais directo, com uma energia que empurra para território onde o noise se torna quase físico. Podes ouvir “Nogamac” em baixo.
O que vem a seguir e o que fica
Meiofim admite ter mais material em bruto e não exclui uma colecção maior de faixas no futuro, talvez um EP, onde possa explorar diferentes abordagens mantendo elementos reconhecíveis mas alargando o campo de possibilidades e transmutações sónicas.
“Camagon” e “Nogamac” não são de todo temas que entrem de forma gentil, e pedem que se aceite o desconforto e a experimentação sonora como parte da experiência. E há nestes dois temas uma coesão, talvez confronto, que os trabalhos anteriores começaram. Quem nunca ouviu Meiofim, pode bem começar por aqui. “Camagon” e “Nogamac” já estão disponíveis no YouTube, não percas!
Bandcamp: @meiofim | Youtube: @Meiofim | Instagram: @meiofim.insta
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