10 perguntas rápidas a André Carvalho

Depois da entrevista sobre “Of Fragility and Impermanence”, quisemos conhecer o outro lado de André Carvalho. Dez perguntas curtas, sem rede, sobre as coisas que os discos e as notas de imprensa nunca contam. O contrabaixista e compositor falou ao musica.com.pt de concertos desastrosos, guilty pleasures dos anos 80, filmes que gostava de musicar e da reacção dos filhos à sua música.

Podes ver o vídeo em baixo:

1. Qual foi o concerto que correu pior?

André Carvalho não precisou de pensar muito. Porventura algures no início da carreira, há muitos anos, subiu a um palco sem estar preparado. “Não sabia a música como a deveria saber, e por outro lado não tinha os skills e os chops para vencer em zona de guerra.” Não se lembra do concerto específico, mas lembra-se da sensação. Hoje em dia, diz, tenta ir sempre preparado.

2. Uma música que ouves às escondidas?

Às escondidas, nenhuma. Zero vergonha. André Carvalho cresceu a ouvir clássicos dos anos 80 e não tem problema nenhum em pô-los aos berros. “Se calhar não era aquilo que estaríamos à espera” tendo em conta as referências que partilhou na entrevista, entre Sakamoto e Alva Noto, “mas estão lá. E não nego.”

3. Há um problema de público para o jazz em Portugal?

A resposta foi directa: não. “Nos últimos 15 anos houve um boom muito grande de festivais de jazz, com uma oferta obviamente variada, o que é fixe”. Sem dramatismos, sem discursos sobre o estado da cultura. Há público, há festivais, há diversidade. Ponto.

4. Alguma vez pensaste que devias ter ficado em informática?

Não. Mas André Carvalho reconhece que o curso lhe deu ferramentas que usa todos os dias enquanto músico: organização, estruturar o tempo, e sobretudo “partir problemas grandes em problemas mais pequenos”. Quem diria que a Faculdade de Ciências preparava compositores.

5. Músicos portugueses que deviam ter mais destaque?

Não quis citar nomes. Mas deixou claro que as pessoas com quem se vai rodeando merecem mais visibilidade. “Há uma geração de músicos, não só da minha geração, mas de gerações anteriores e posteriores. Há mesmo muitos músicos incríveis”. Disse que se sente “feliz e honrado” por ter contacto com malta mais nova que, segundo ele, “tem uma cabeça incrível.”

6. A pior crítica que já recebeste?

Admite que já recebeu “uma que não foi não foi muito agradável”. Sobre a crítica em si, respeita. Sobre o exercício de criticar o que não se gosta, tem uma posição clara.

7. Contrabaixos e aviões?

“Difícil, mas felizmente raro”. As viagens com contrabaixo no avião são poucas. Quando toca fora, geralmente tem um instrumento à espera no destino. Que pode ser bom, razoável ou péssimo. “Mas pronto, é vicissitude”. E segue-se em frente.

8. Se pudesses compor a banda sonora de um filme que já existe?

Esta foi a pergunta que mais tempo demorou. O primeiro nome foi “Lawrence da Arábia”. “Adoro o filme, adoro a banda sonora. É um filme incrível, gosto de ver todos os anos.” Depois pensou em “Ikiru” de Kurosawa. E finalmente em “Stalker” de Tarkovski, que acabou por ser a escolha mais interessante: “Se calhar não gosto assim tanto da banda sonora quanto gosto do filme, e gostava de fazer uma para esse”.

9. Já tentaste alguma colaboração e levaste um não?

Nunca. Mas não é por falta de ambição. André Carvalho simplesmente prefere ir conhecendo as pessoas antes de lançar convites. “Não é só porque admiro aquela pessoa artisticamente, mas também porque de alguma forma consigo chegar àquela pessoa”.

10. O que é que os teus filhos acham da tua música?

A melhor resposta da sessão inteira. “Depende. Há algumas coisas que acham piada, outras que é tipo ‘esquece'”. Os miúdos estiveram no Guimarães Jazz e não resistiram à metade do concerto. André Carvalho percebe: “São pequeninos, e não é propriamente música que oiças facilmente. Precisas de alguma maturidade para estar em silêncio e ouvir”.

Mas encontrou uma forma de contornar o problema. Em vez de lhes pôr o disco a tocar, mostra-lhes os filmes para os quais compôs a banda sonora. “Olha, o pai fez esta banda sonora para este filme. Vamos ver?” E eles vêem. E acham piada. A porta de entrada para a música do pai são aranhas animadas e histórias filmadas, não concertos de uma hora num festival de jazz. Faz todo o sentido.

O álbum “Of Fragility and Impermanence” já está disponível nas plataformas digitais e em formato físico (CD e LP) pela Robalo Music. Podes ler os nossos artigos anteriores sobre André Carvalho aqui:

Instagram: @andrecarvalho.bass | Facebook: @carvalhobass

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Pedro Ribeiro
Escrito por

Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro é o fundador do musica.com.pt. Como músico e produtor conta com mais de 25 anos de experiência no mundo da música, tendo participado em projetos como Peeeedro, Moullinex, MAU, entre outros, e tocando em venues como Lux, Maus Hábitos, Plano B, Culturgest, Glasgow School of Arts, entre muitas outras salas e locais em Portugal e no estrangeiro. Compôs música para teatro (Jorge Fraga, Graeme Pulleyn, Teatro Viriato), dança contemporânea (Romulus Neagu, Peter Michael Dietz, Patrick Murys, Teatro Viriato), TV (RTP2) e várias rádios.

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