O contrabaixista e compositor André Carvalho falou com o musica.com.pt sobre “Of Fragility and Impermanence”, o álbum editado em novembro de 2025 pela Robalo Music.
Numa conversa bem disposta e sem pressas, gravada poucos meses depois do lançamento do álbum, André Carvalho abriu o jogo sobre como o disco continua a transformar-se em palco, os limites entre composição e improviso, o regresso forçado de Nova Iorque, o processo de gravação em Serpa, a relação com o contrabaixo aos 40 anos e os planos que tem para o futuro.
Fica a entrevista em baixo:
No final, André ainda ficou mais uns minutos connosco para uma ronda de 10 perguntas rápidas onde se falou de Kurosawa, clássicos dos anos 80 e filhos que fogem a meio dos concertos do pai.
“Of Fragility and Impermanence”: Três meses depois
Quando nos sentámos com André Carvalho, o álbum “Of Fragility and Impermanence” tinha três meses de vida. Perguntámos-lhe o que sentia em relação à música passado esse tempo.
“Ainda me sinto muito agarrado a esta música”, diz. “Sinto que ainda há muito espaço por onde a música pode evoluir, especialmente em palco. Quanto mais tocamos, mais vamos descobrindo na música.”
É tentador chamar-lhe jazz. André Carvalho reconhece que é uma das suas casas de partida, mas não quer que a palavra funcione como rótulo. “A música em si não sinto que esteja agarrada a uma estética jazz”, explica. O que lhe interessa é a improvisação enquanto ferramenta, independente de linguagem. E os limites entre o que está escrito e o que nasce no momento.
“Quem já ouviu o disco se calhar não percebe o que é que poderá estar escrito e o que é que poderá não estar escrito. Isso também é uma coisa que me interessa, os limites entre a composição e improvisação e como é que as coisas se cruzam e se misturam umas com as outras.” diz André

A saída de Nova Iorque que não estava nos planos
Quem acompanha a trajectória de André Carvalho sabe que o músico viveu vários anos nos Estados Unidos. O que talvez nem todos saibam é que a saída de Nova Iorque não foi escolhida. Na conversa com o musica.com.pt, o compositor conta que ele e a família fecharam a porta de casa à chave com a intenção de regressar, mas ficaram impedidos de reentrar no país durante dois anos por questões de vistos agravadas pela pandemia.
“Houve aqui também alguma frustração envolvida de ter que ser obrigada a fazer uma decisão que naquele instante eu não imaginava”, admite André Carvalho.
O regresso a Portugal trouxe o conforto da proximidade com amigos e família, mas também o confronto com realidades que a distância tinha amortecido. O envelhecimento de quem lhe é próximo, a doença, a fragilidade. A paternidade, que já tinha chegado antes da mudança, acrescentou outra camada a tudo isto. “Foram todas essas coisas que acabaram por fazer pensar um bocado sobre a minha vida.”
O momento que arrancou “Of Fragility and Impermanence” do plano das ideias aconteceu numa tour na Suécia. Viagens longas de minibus, horas mortas entre concertos, e André Carvalho a escrever texto em vez de partituras. Palavras, não notas. “Acho que isso foi o tal trigger”, diz. “Depois fiz com que as coisas começassem a acontecer a pouco e pouco.”

Questionado sobre se o álbum seguia uma narrativa linear, tipo ponto A ao ponto B, André Carvalho distingue este trabalho dos anteriores. “The Garden of Earthly Delights” era uma suite inspirada num quadro de Hieronymus Bosch, com percurso definido. Os dois volumes de “Lost in Translation” partiam de palavras intraduzíveis, cada tema com a sua narrativa individual. “Of Fragility and Impermanence” é outra coisa: “Foi mais pensado como fossem reflexões musicais sobre determinados tópicos.” Parentalidade, histórias para os filhos, morte.
E há outra camada que André Carvalho admite não ser totalmente consciente: deixar-se influenciar por outras formas de arte e imaginar como seria musicá-las.
“Como é que eu imagino música para determinada obra de arte que não é propriamente música, mas que também aborda temáticas que são as temáticas que eu tento abordar”, explica. Cinema, artes plásticas, tudo entra na sua linguagem.
O almoço que abriu caminho ao disco
A gravação aconteceu no Centro Musibéria, em Serpa, mas o processo começou antes, em casa de André Carvalho em Lisboa. Organizou ensaios com o quinteto, e no primeiro fez questão de cozinhar um almoço grande antes de tocar uma única nota. Queria explicar o conceito, falar sobre o que imaginava para a música, mesmo sem ter tudo escrito.
Segundo André Carvalho, “Eles perceberam bem, porque também são pessoas muito sensíveis, e por isso depois as coisas foram bastante fáceis.”
A escolha dos músicos seguiu uma lógica de confiança construída ao longo de anos. José Soares (saxofone) já ia no terceiro disco com André Carvalho. Raquel Reis (violoncelo), amiga de longa data, vinha da música erudita e contemporânea. Os dois já tinham feito concertos a improvisar sobre pinturas projectadas. André Carvalho também participou num festival de cinema em Tomar onde lhe deram stills de curtas que nunca tinham visto e tiveram de musicar ao vivo. Samuel Gapp entrou ao piano, e João Hasselberg na electrónica.
O caso de Hasselberg é curioso. André Carvalho e ele conhecem-se há mais de 20 anos, desde a escola do Clube, ambos contrabaixistas. Nunca tinham tocado juntos. Seguiram caminhos opostos: André Carvalho para os Estados Unidos, Hasselberg para a Holanda e depois Copenhaga. Quando voltaram a cruzar-se em Lisboa, André Carvalho reparou que o amigo estava cada vez mais envolvido com electrónica.
“Achei que este grupo de pessoas, com universos diferentes, mas com quem eu já tinha tocado ou intuía que as coisas poderiam funcionar, decidi reuni-los.”, menciona André
Em Serpa, os primeiros dias serviram para afinar a captação (a cargo de Tiago Sousa e André Espada) e ensaiar. Depois, gravaram tema a tema, com espaço para improvisação entre as peças escritas. “OK, este já está, posto de lado. Agora podemos improvisar um bocadinho, põe a gravar. Pronto, este já está.”
A electrónica que reage em tempo real
Um dos pontos mais reveladores da entrevista foi a forma como André Carvalho descreve o papel da electrónica. Confessa que nos primeiros ensaios não sabia o que esperar. A certeza de que resultaria estava lá, mas o caminho para chegar a esse resultado era desconhecido.
“Muitas das coisas que ele faz são de live sampling, de ele ter acesso aos nossos sinais todos e de estar a processar em tempo real”, explica André Carvalho sobre o trabalho de João Hasselberg.
A electrónica não foi uma camada colocada por cima da gravação. Foi um instrumento reactivo, que respondia ao que os acústicos produziam no momento. “Há temas claramente em que a electrónica está mais à frente, é quase um feature, e depois nós estamos por trás. E o vice-versa.” À medida que vão tocando ao vivo, essa relação entre acústico e electrónico continua a evoluir. Saber quando recuar, quando avançar, quando deixar espaço.
Concertos que nunca se repetem
Três meses depois do lançamento, a música de “Of Fragility and Impermanence” continuava a mudar de forma em palco. É uma das coisas que mais entusiasma André Carvalho. Não melhor nem pior que a versão gravada. Diferente.
“Há pessoas que foram a um ou dois ou três dos concertos e notaram muitas diferenças entre um e outro.”, menciona André
A estreia no Guimarães Jazz, em novembro de 2025, foi atribulada nos bastidores. Viagem de madrugada de Lisboa, José Soares a perder voos e a chegar instantes antes do concerto, sem passar pelo soundcheck. “Parece que entramos em palco e essas coisas todas desaparecem.”
Para os músicos, o ganho é outro segundo André Carvalho: “É óptimo sentirmos que as coisas não estão em piloto automático e que cada vez que tocamos temos que estar presentes.”
O concerto no CCB, em dezembro, trouxe um bónus inesperado: comunidade. Backstage partilhado com outros músicos, conversa, copos depois dos concertos até tarde. André Carvalho não esperava esse tipo de ambiente num espaço daquela dimensão. “Houve uma coisa de comunidade. É estranho imaginares num sítio como o CCB, que é um sítio grande, mas isso aconteceu.”
O contrabaixo aos 40 anos
Quando questionado sobre a relação com o instrumento, André Carvalho é frontal. “Há uns dez anos atrás eu não conseguia sequer imaginar que a minha vida seria possível sem um contrabaixo, e que o André Carvalho se resumia a ser contrabaixista. Hoje em dia já consigo ter algum desapego.” Não por falta de amor pelo instrumento que toca há mais de 20 anos. A composição tornou-se um segundo território com a mesma importância, e esse segundo território continua a expandir-se.
“Sinto-me completamente ignorante no sentido de que há tantas outras coisas que eu não sei e gostava de viver mais uns 80 anos para ter tempo.”, afirma André
Quando compõe, raramente escreve ao contrabaixo. O piano é o instrumento de eleição para a composição, e por vezes nem precisa de um instrumento: começa por escrever num papel, sketches de ideias, “às vezes até quase desenhos, coisas gráficas.” O computador é o outro pilar, pelas possibilidades sonoras que oferece. São ferramentas diferentes para necessidades diferentes.
Da informática à música (sem arrependimentos)
Antes de tudo isto, houve informática. André Carvalho entrou na Faculdade de Ciências com 17 anos. O interesse pela música foi crescendo durante o curso, começou com o baixo eléctrico e aulas particulares. Ia a muitos concertos de jazz com Tiago Sousa (que viria a ser o engenheiro de som dos seus discos), trocavam discos, vasculhavam bibliotecas. Depois reparou que na música que ouvia cada vez mais, o instrumento que aparecia não era o baixo eléctrico. Era o contrabaixo. No último ano da licenciatura, inscreveu-se na Escola do Clube e na Academia de Amadores de Música. Três universos ao mesmo tempo. Acabou o curso e nunca trabalhou em informática.
Seguiu-se Viena para uma segunda licenciatura, desta vez em música. “Acho que é uma cidade óptima para estudar. Não era capaz de lá viver, como imaginei em Nova Iorque. Mas deu-me imensas coisas.” Depois Nova Iorque, e depois o regresso involuntário que desaguou neste disco.
Três curtas, uma longa e “Jerusalém” de Gonçalo M. Tavares
Os meses entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026 foram, nas palavras de André Carvalho, “bastante intensos”. Banda sonora para três curtas-metragens, um trailer, o desenvolvimento lento de uma longa-metragem, e uma comissão para musicar “Jerusalém” de Gonçalo M. Tavares. Uma das curtas nasceu de uma residência artística no Shortcut, festival de cinema em Ovar. Durante quatro dias, teve de desenvolver argumento e filmar; a pós-produção estendeu-se até fevereiro.
A história mais curiosa dessa residência envolve um senhor de quase 90 anos que tocava búzio na zona da Ria de Aveiro. O búzio dá uma nota só, e os ritmos que o senhor produzia serviam originalmente para chamar pescadores para os barcos. André Carvalho gravou-o longamente e depois construiu toda a banda sonora da curta-metragem usando apenas o som do búzio, criando instrumentos virtuais a partir daquela nota única.
“Só para ver que acabam por ser projetos todos eles sempre bastante diferentes. Aos 40 anos estou a descobrir outras formas de fazer música que não eram aquelas que eu imaginava quando tinha 20.”, diz-nos André Carvalho
Recebeu ainda um apoio para gravar o terceiro volume de “Lost in Translation”, o projecto de trio. E sobre o futuro do quinteto de “Of Fragility and Impermanence”, não tem dúvidas: quer continuar e pondera seriamente um segundo disco com esta formação.
“Não sei o que seria a música, não sei o que seria o conceito, mas também não tenho que perceber já.”, conforme menciona André Carvalho
Influências recentes
Para fechar a entrevista, pedimos a André Carvalho que partilhasse artistas que tenha ouvido recentemente e que lhe tenham dito alguma coisa. Não são necessariamente lançamentos dos últimos meses, mas música que o acompanhou nesta fase. Dois nomes: Ryuichi Sakamoto e Alva Noto.
“Há bastantes músicos nessa estética que eu tenho procurado ouvir e que me têm aberto horizontes para outras perspectivas.” afirma André
Conclusão
Ao longo de cerca de 38 minutos de conversa bem disposta, André Carvalho mostrou-se exactamente como a sua música: atento, confortável com a incerteza, honesto sobre o que sabe e o que ainda quer descobrir. Falou da frustração de sair de Nova Iorque sem saber se voltava, da estranheza de se readaptar a Lisboa, de como cozinhou um almoço para cinco músicos antes de lhes tocar uma nota, e de como um búzio de uma nota só se transformou numa banda sonora inteira.
“Of Fragility and Impermanence” está disponível nas plataformas digitais e em formato físico (CD e LP) pela Robalo Music. Podes ler os nossos artigos anteriores sobre André Carvalho aqui:
- 10 perguntas rápidas a André Carvalho
- André Carvalho regressa com “Of Fragility and Impermanence”
- André Carvalho apresenta “Dores de Crescimento”
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