Entrevista com Soma Please: EP “ballet” lançado entre o frio Inglês e o calor de Portugal

No primeiro EP, “ballet”, Soma Please cruzam indie, pop, electrónica e canções de guitarra com uma honestidade desarmante, uma ética de trabalho irrepreensível e um diálogo permanente entre Portugal e Inglaterra.

Estivemos à conversa com os Soma Please no dia a seguir ao lançamento, dia 15 de Maio (o lançamento foi a uma quinta-feira, dia 14), onde ficámos a conhecer um pouco mais sobre este projecto, sobre o Nuno Bracourt e o Rob Williamson, o álbum que lançaram, o trabalho em estúdio, e muitas outras coisas!

Podes ver e ouvir a entrevista com os Soma Please em baixo!

Um EP chamado “ballet”

ballet chegou no dia 14 de maio como primeiro cartão de visita oficial de Soma Please, o projeto que junta o português Nuno Bracourt e o britânico Rob Williamson. O nome pode sugerir leveza e elegância, mas o disco vive precisamente desse contraste: canções “mais sujas do que o próprio ‘ballet’”, como eles descrevem, onde a ideia dadaísta de pôr uma palavra frágil num universo de contrastes sonoros ajuda a definir logo a identidade da banda.

Capa do álbum "ballet" dos Soma Please.
Capa do álbum “ballet” dos Soma Please.

Ao longo do EP sente‑se uma vontade clara de experimentar: guitarras indie old school, synths, exploração de instrumentos clássicos, electrónica, e um cuidado grande com textura e dinâmica. O resultado é um conjunto de temas versátil, onde quem vem da pop, do rock ou do indie de guitarras se consegue encontrar sem sentir que se está a ouvir “música de nicho”.

“Acho que as músicas são um pouco mais sujas do que ‘ballet’, por isso gostamos muito desse contraste.”

“I’m a Fan”: entre admiração e fanatismo

O EP de Soma Please abre com “I’m a Fan”, uma canção que nasceu da frustração criativa depois de três dias sem nada que valesse a pena guardar. Habituados a compor rápido, Nuno e Rob bateram na parede, até que, de repente, a música apareceu, com um baixo reduzido ao essencial, uma batida simples e um daqueles momentos em que, nas palavras deles, “simplesmente aconteceu”.

Liricamente, “I’m a Fan” olha para a cultura musical contemporânea e para a linha ténue entre uma relação saudável com a arte e o momento em que a admiração desliza para obsessão. A canção fala dessa tensão, de quando “I love this” passa a “I need this”, e transforma esse conflito num tema espontâneo, directo, que os próprios consideram um dos pontos altos do EP.

“Gostamos muito da ideia de como a admiração e a obsessão se podem misturar.”

Julien Barbagallo, Tame Impala e o peso da bateria

“I’m a Fan” tem ainda um convidado especial que diz muito sobre a aspiração sonora de Soma Please: Julien Barbagallo, baterista de Tame Impala. Fãs declarados da banda de Kevin Parker, Nuno Bracourt e Rob Williamson começaram por seguir Julien Barbagallo no Instagram, perceberam que ele gravava sessões remotas de bateria e decidiram arriscar o contacto.

A colaboração aconteceu à distância: enviaram stems e uma demo com a batida base, e deram‑lhe liberdade total para acrescentar fills e moldar o groove. O objectivo era simples: dar à música uma identidade “drum heavy”, em que a bateria não é apenas suporte, mas uma peça central da canção.

“Acho que o tema realmente precisava de uma identidade e ser bastante ‘drum heavy’, se é que isso faz sentido.”

“Love”: a canção pop que não era para ser pop

Se “I’m a Fan” nasce de frustração e espontaneidade, “Love” chega como o lado mais assumidamente pop de Soma Please. A banda reconhece o impacto do tema, “acho que é a nossa música mais pop”, e o facto de ter trazido novos ouvintes que gostam de pop e rock mais directos, em contraste com o lado mais experimental de “Pockets on My Sleeves”.

Curiosamente, “Love” começou como uma tentativa de escrever uma música acústica à Elliot Smith e acabou a transformar‑se num híbrido emocional, guiado pelo refrão obsessivo “I Love You, I Love You, I Love You, I Love You”. A repetição cria a tensão e a emoção necessárias, reforçada por arranjos de cordas e guitarras que dão densidade sem perder a simplicidade.

“Tivemos a ideia de cantar ‘I Love You, I Love You, I Love You, I Love You’. E pensámos que tinha um pouco de tensão emocional de que gostámos.”

“Pockets on My Sleeves”: quando Soma Please se descobrem a si próprios

“Pockets on My Sleeves” foi o primeiro single a ver a luz do dia e a canção que, para Nuno e Rob, cristalizou aquilo que Soma Please podia ser. O tema, hoje a rodar em rádios nacionais e a subir tops, não era apenas “mais uma música”: foi o momento em que olharam para o que tinham e disseram “isto é Soma Please”.

A canção foi também uma espécie de âncora num processo em que escreveram imenso, descartaram muita coisa e guardaram apenas aquilo que fazia sentido a longo prazo. O single trouxe feedback positivo, confiança e, sobretudo, gasolina para o resto do EP, depois de experiências passadas em que lançaram música que simplesmente não chegou às pessoas.

“Acho que o ‘Pockets on My Sleeves’ foi o primeiro tema em que pensámos: ‘Ok, isto é Soma Please!’”

“Alone” e “What’s the Score?”: dois lados da mesma moeda

Na recta final de “ballet”, “Alone” e “What’s the Score?” aparecem quase como duas faces de um mesmo estado emocional. Uma (“Alone”) começa vulnerável, quase despida, e cresce para um momento épico; a outra (“What’s the Score”) nasce de um período menos luminoso da vida de Rob e foi resgatada anos depois para ganhar nova vida no contexto da banda.

“Alone” é a única canção escrita totalmente à guitarra, à beira de um rio em Barnard Castle, num dia em que estavam cansados de estúdio e precisaram de mudar de cenário. “What’s the Score?” foi trabalhada de forma mais experimental em estúdio, com synths, delays e efeitos a ocuparem o espaço até encontrarem o equilíbrio entre caos e forma.

“Em ‘What’s the Score?’ fomos bastante experimentais. Em ‘Alone’ era mais sobre o que poderíamos retirar da música em vez de apenas adicionar e acrescentar.”

A história de Soma Please: Manchester, Porto, Lisboa

Nuno Bracourt e Rob Williamson conheceram‑se em Manchester, na universidade, através do primo de Rob, e começaram por tocar juntos em Wearing Velvet, a primeira banda que partilharam. O projecto navegou durante algum tempo até que a pandemia os colocou em países diferentes e a vida seguiu caminhos separados.

O reencontro aconteceu de forma quase cinematográfica: já depois de Nuno voltar para Portugal, perceberam pelos Instastories que estavam ambos no Porto, encontraram‑se para beber um copo, trocaram músicas e a ideia de um novo projecto começou aí. Soma Please nasce dessa segunda oportunidade: uma banda que vive entre países, mas que insiste em manter a génese das canções no mesmo espaço físico sempre que possível.

“É muito importante para nós começarmos a compor a música juntos, estarmos ambos presentes na mesma sala, porque o feedback é instantâneo.”

Escrever entre países: restrições que ajudam a focar

Hoje, Soma Please organizam o trabalho entre Lisboa e Inglaterra, com muitas chamadas, ficheiros enviados, arranjos e misturas feitas remotamente, mas com a regra não escrita de que a génese das músicas acontece juntos. A distância obriga a aproveitar ao máximo o tempo em que estão na mesma sala, a seguir ideias até ao fim enquanto a faísca está acesa, e a usar a restrição de tempo como ferramenta criativa e delimitadora.

Quando a fase passa para o lado mais técnico, misturas, detalhes de produção, ajustes de synths e arranjos, o processo torna‑se mais solitário, com Rob a assumir a frente na DAW e Nuno a funcionar muitas vezes como “director conceptual”, a sugerir caminhos, atmosferas e decisões de produção.

“A ideia que servir melhor a música vence. Tentamos deixar o nosso ego de lado.”

Rob Williamson e Nuno Bracourt dos Soma Please. Crédito Fotografia: Emilia Burgos
Rob Williamson e Nuno Bracourt dos Soma Please. Crédito Fotografia: Emilia Burgos

Ferramentas, DAWs e a obsessão saudável pelo som

Tecnicamente, Soma Please movem‑se num território familiar a quem vive entre o indie e a produção moderna: Ableton Live é a casa principal (Rob), com o Logic a aparecer como segundo habitat criativo (Nuno). No estúdio os Yamaha HS7, auscultadores Audio‑Technica, AirPods e quaisquer outras colunas e dispositivos servem de referência cruzada, num processo de mistura que passa tanto por ouvir em detalhe como por pôr a música a tocar enquanto se cozinha ou se está com amigos, para recuperar a perspectiva de simples ouvinte.

Nos plug‑ins, há uma mistura de clássicos e brinquedos estranhos: Soundtoys (Decapitator, Little AlterBoy), emulações de LA‑2A e 1176, compressores SSL, Ozone (limitador e Low End Focus), instrumentos da Arturia e ferramentas mais experimentais como os plug‑ins da Freak Show Industries. Do lado físico, há o Prophet no centro de vários temas, drum machines e samplers como o Elektron Analog Rytm e pedais JHS Fuzz, Boss Blues Driver e delays MXR a entrarem quando é preciso sujar a guitarra.

“Acima de tudo, explorar ferramentas e encontrar novos sons que nunca ouviste antes é realmente interessante para mim.”

A vontade de tocar ao vivo

Para além do estúdio, Ableton Live volta a ser peça central quando a conversa passa para o palco. A banda está, neste momento, a ensaiar com duas formações diferentes, uma em Inglaterra e outra em Portugal, para conseguir transportar para o ao vivo um som que, em disco, vive muito “dentro do computador”.

A ideia é evitar depender de backing tracks, embora reconheçam que, pela natureza das produções, alguma componente pré‑gravada será inevitável, até para poder minimizar a pegada em palco. A solução está algures entre emuladores, pedais e Ableton a correr em palco, sempre com a consciência de que, muitas vezes, uma música pode soar ainda melhor ao vivo do que em estúdio.

Soma Please, capa do single "Pockets on my sleeves"
Soma Please, capa do single “Pockets on my sleeves”

O lado visual: quando a cor já conta uma história

Se a música é o núcleo, o lado visual também tem o seu peso. Os Soma Please levam a sério a forma como se apresentam: artwork, videoclipes, fotografia e a própria narrativa visual são pensados para reflectir a dualidade Inglaterra–Portugal, o frio e o azul versus o amarelo e o calor.

Grande parte dos vídeos é filmada e realizada por eles, com Nuno Bracourt a assumir frequentemente o papel de realizador, em colaboração com outras pessoas.

A verdade é que muitas vezes, nos nossos hábitos de consumo, antes até de carregarmos no play, olhamos para a capa, para a miniatura do vídeo, para a estética, e muitas vezes decidimos se queremos ou não ouvir a música baseado nesse mesmo factor.

“Acho que a primeira coisa que as pessoas veem é o lado visual, antes mesmo de ouvirem a música.”

Soma Please, capa do single "Love"
Soma Please, capa do single “Love”

Influências, conselhos e a importância de falhar cedo

No background de Soma PleaseBeatles a tocar em casa dos pais, Arctic Monkeys e The Strokes a serem descobertos em adolescente, Elliot Smith como fantasma criativo e Tame Impala como referência óbvia de produção. A formação passa tanto pela escola de música clássica e pelo piano, como por tardes passadas a descobrir bandas indie, a instalar o Logic aos 15 anos e a nunca mais largar a produção.

Quando falam de conselhos para quem está a começar, são directos: mergulhar, falhar rápido e muito, aprender com isso e desconfiar de fórmulas rígidas sobre o que “funciona” ou “não funciona” em música. A única regra que assumem é a de não terem regras fechadas. O que interessa é servir a canção, e servir a música, meter o ego de lado, desde que a canção, no fim, os deixe orgulhosos do resultado final e do processo criativo.

“Quanto mais cedo falhares, melhor, e é importante quantas vezes falhas porque vais aprender mais coisas.”

O que vem a seguir para Soma Please

Nos próximos meses, o foco de Soma Please está em consolidar um set forte para palco e continuar a escrever o mais rápido possível, de forma a transformar o impulso de “ballet” em um álbum. Há ideias em circulação, ensaios a acontecer em dois países e uma vontade clara de tocar mais ao vivo, e no fundo, ligarem‑se às pessoas e também sentirem que as pessoas se estão a ligar à música deles.

Para o futuro a banda quer estar em palco com regularidade e ter pelo menos um álbum cá fora, mantendo o equilíbrio entre experimentação, canção pop e aquela ética de trabalho que insiste em ouvir a mesma secção em loop até fazer sentido.

O álbum já está disponível em todas as plataformas do costume e se ainda não ouviste “ballet” dos Soma Please, estás à espera de quê?

Instagram: @somaplease

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Pedro Ribeiro
Escrito por

Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro é o fundador do musica.com.pt. Como músico e produtor conta com mais de 25 anos de experiência no mundo da música, tendo participado em projetos como Peeeedro, Moullinex, MAU, entre outros, e tocando em venues como Lux, Maus Hábitos, Plano B, Culturgest, Glasgow School of Arts, entre muitas outras salas e locais em Portugal e no estrangeiro. Compôs música para teatro (Jorge Fraga, Graeme Pulleyn, Teatro Viriato), dança contemporânea (Romulus Neagu, Peter Michael Dietz, Patrick Murys, Teatro Viriato), TV (RTP2) e várias rádios.

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