Há noites que correm sempre o risco de se tornarem históricas muito antes de começarem. Para mim, a noite do dia 26 de maio, era um dos momentos mais esperado deste 2026. Bad Bunny não é apenas mais um nome na minha playlist, pois é um dos meus artistas preferidos e a sua banda sonora revolucionou a forma como sinto e vivo a música.
Depois de muitos anos de desencontros e cancelamentos de festivais, a contagem decrescente para a estreia absoluta de Bad Bunny em Portugal foi vivida com uma ansiedade miudinha. Algumas horas antes de as portas abrirem, já Lisboa se encontrava caótica com diversos condicionamentos de trânsito e avisos para chegarmos cedo, mas perto do Estádio da Luz observavam-se pessoas vestidas a rigor, com um toque único da energia tropical e tinha comigo um pressentimento que algo único estava a aproximar-se.
Bad Bunny: O Calor de Porto Rico
A viagem para a América Latina começou a ganhar forma real passavam poucos minutos das 20h, quando a banda Chuwi subiu ao palco. Com um som contagiante, a banda porto-riquenha não demorou a quebrar o gelo do público, transportando cada pessoa presente para o calor quente da sua ilha. Podemos considerar que foi o início perfeito para começar a entrar no ritmo “caliente” do concerto e também preparar os nossos corpos para a maratona que se aproximava.
Cada minuto que o relógio marcava era quase doloroso, numa espera que atormentava quem queria ver e ouvir Bad Bunny. O estádio encheu-se e mais de 60 mil pessoas ansiavam pelo concerto do ano. As luzes apagaram, o estádio esperava e por volta das 21h sem passar um segundo, o coração de todos saltou só por uma batida. Na entrada dois jovens portugueses no ecrã principal ditavam de cor o início de “La MuDANZA”.
No fim, Benito aparece sozinho, incrédulo e imóvel no centro do palco. O público português estremeceu o estádio com uma ovação de 2 minutos e sentia-se no ar um pressentimento que quando fosse gritado, “Un aplauso pa mami y papi porque en verdá rompieron”, algo histórico iria ser vivido.
Depois da primeira música e dos primeiros passos de dança, Bad Bunny deu um leve sorriso e confessou, “até que enfim que chegámos a Lisboa”, neste momento mais uma ovação se ouviu e mesmo incrédulo e provavelmente sem saber que Portugal o iria receber assim, limitou-se a referir que “Não sabia que ia cantar para tanta gente esta noite. É a minha primeira vez aqui e estava ansioso para perceber o que me esperava”.
A partir deste momento o que testemunhámos não foi um simples concerto, foi antes uma festa de orgulho da cultura e raízes de Benito com mensagens fortes e uma avassaladora energia que mexia até mesmo quem estava triste. Dividido em três atos distintos, a noite foi longa mas bela!
A visão do presente e uma homenagem arrepiante
O arranque fez-se de olhos postos no presente, com foco no melhor álbum do ano “DeBÍ TiRAR MáS FOToS”. Com o seu primeiro figurino, o Benito trouxe o peso do trap e reggaeton moderno com “WELTiTA” que teve participação especial em palco de Chuwi a banda inicial que participa nesta faixa. Seguiu-se, “TURISTA”, “PIToRRO DE COCO” e algumas outras que foram entoadas em coro.
Como fã, a loucura subiu de nível quando soaram as primeiras notas do icónico “BAILE INOLVIDABLE” que transformou o Estádio da Luz numa gigantesca aula de salsa a céu aberto. Todas as pessoas dançavam alegres com zero problemas, com a mente na música e voz de Bad Bunny. Ali o mundo era feliz, sentia-me em Porto Rico com o calor que se fazia sentir e com os meus pés ao ritmo da música.
Sem dar tréguas, seguiu-se “NUEVAYoL”, que fez literalmente estremecer as bancadas. A energia acumulada era incontrolável e o que se sentia era indescritível, ali Bad Bunny já tinha transformado o relvado e as bancadas num pequeno pedaço tropical da sua casa.
A meio desta primeira parte, viveu-se um dos momentos mais bonitos da noite. Do nada, as guitarras pararam para dar lugar a um solo inesperado. Os primeiros acordes de “Lisboa Menina e Moça” ecoaram nas colunas da Luz. O excerto desta música única de Carlos do Carmo foi tocada num cuatro porto-riquenho, um dos instrumentos centrais na música tradicional de Porto Rico.
Ver a nossa identidade cultural ser abraçada de uma maneira respeitosa deixou o público em uníssono a cantar o refrão, visto que nada nos faz sentir tão bem quando um cantor internacional reconhece a nossa cultura.
A nostalgia da “La Casita” e o “perreo” solto em Portugal
Com a primeira mudança de roupa, o concerto mudou de ambiente e um dos meus lados mais nostálgicos já se preparava para o que aí vinha. O foco virou-se para “La Casita”, uma réplica de uma casa tradicional porto-riquenha montada na outra ponta do estádio. Foi o momento perfeito para viajar ao passado e resgatar hits antigos que contribuíram ao fenómeno do artista.
Antes desta mudança, fomos surpreendidos pelo Sapo Concho, um dos símbolos do álbum e desta tour, que surgiu deslumbrado com Portugal e com as nossas iguarias desde o famoso pastel de nata até a uma boa francesinha.
Rodeado de bailarinos, fãs e músicos, uma vez mais o estádio transformou-se numa autêntica festa de bairro. Bad Bunny depois de alguns minutos a cumprimentar os fãs num momento terno e carinhoso, subiu para o telhado da “Casita” e deu ao público o autêntico “perreo”. Gastei a voz a cantar, “Tití Me Preguntó”, “Neverita”, “VeLDÁ”, “MONACO” e ainda a música que descreve perfeitamente aquele momento para mim que foi “Yo Perreo Sola”.
Cansada de dançar, gritar e viver, o concerto de Bad Bunny trouxe novamente o lado mais tradicional e cultural com “CAFÉ COM RON”, trazendo mais uma vez a participação quente de Los Pleneros de la Cresta que fundem salsa e ritmos tradicionais de Porto Rico. Foi também ali que recebemos a música surpresa da noite exclusiva para Lisboa: “Estamos Bien”.
Naquele momento e durante aquela noite eramos todos porto-riquenhos e eu já queria ter bilhetes sem volta para a ilha tropical de Bad Bunny!
Síntese de tudo e urgência do hoje
Para a reta final e já de regresso ao palco principal com a sua terceira mudança de roupa, assistimos à fusão perfeita dos dois mundos, ou seja, uma comunhão entre a nostalgia e o atual, numa sequência avassaladora de músicas.
Desde “Ojitos Lindos” com o público agarrado a pensar na sua pessoa dos olhos bonitos e ainda “La Canción”, uma das minhas preferidas onde deixei voz e gritos e claramente como pediu Bad Bunny, pensar em alguém a quem dedicasse à música, quem nunca!
Entre músicas ouvia-se sempre o público a gritar, “Benito,Benito” e nesta fase ele já se sentia em “casa”, mas continha ainda admiração, e incrédulo com o público, volta novamente a olhar para todo o lado e acaba de joelhos no meio do palco, talvez ali percebeu a grandeza de Portugal e de cada um que estava presente, mas também o sucesso arrebatador dele num país tão longe de Porto Rico.
Já perto da meia-noite, a cultura e política de Bad Bunny culminaram com “El Apagón” antes de ir para o hit “DtMF”. Foi aí nesses primeiros acordes que os ecrãs começaram a projetar fotos reais dos fãs portugueses antes do concerto, mostrando amigos, casais e famílias. Foi o momento em que Bad Bunny nos deixou uma mensagem muito simples, mas avassaladora, “não pensem nos erros do passado, não se preocupem tanto com o futuro. Vivam o agora”.
Com isto, ele pede para todos sem exceção guardarem os telemóveis e por uns minutos guardamos memórias visuais e mentais, aproveitando o momento e as pessoas ao nosso lado. A despedida fez-se com mais “perreo”. Ao som de “EoO”, com dança, confetes, fogo de artifício e energia sem fim. Três horas depois do início, Bad Bunny despediu-se devagar de um público que o amou até ao fim.
A saída do estádio foi feita numa multidão que ao pescoço ainda tinha as luzes acesas das câmaras do concerto e cantava os refrões pelas saídas. A energia só acabou quando já estávamos bem longe da Luz.
Mais que um simples concerto
Aquilo que cada pessoa viveu ali foi mais do que um simples concerto, foi antes um manifesto contra a tristeza dos dias cinzentos. O público de mais de 60 mil pessoas que assistiu ao concerto de Bad Bunny decidiu unir-se, parecendo somente uma alma gigante que dançava sobre a lua tropical que iluminava o céu.
Bad Bunny não trouxe apenas músicas, pois ali existiu uma celebração sem amarras, comprovando que quando a música tem alma, a língua nunca será uma barreira! Há concertos que vemos e gostamos, mas isto foi um “Baile Inolvidable”!
“Baile” este que para mim fica marcado como o concerto do ano em Portugal, que vai diretamente para o meu peito e memória, como aquele calor bom que fica na pele depois do sol se pôr e o cheiro a maresia preso no cabelo.
Que orgulho ter estado lá e viver a melhor festa de Porto Rico em solo nacional, pois Benito Antonio Martínez Ocasio, “soy tua”!
Site oficial: debitirarmasfotos.com | World Tour: depuertoricopalmundo.com
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Chegaste ao fim deste artigo, boa!
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