Ricardo Reis Soares lançou o EP “contra tempo”, trabalho de estreia do cantautor que traz seis composições originais em português. O single que acompanha esta edição chama-se “Olhos de Inês” e chegou acompanhado de videoclipe realizado por Vitor Martins. Deixamos o vídeo em baixo para veres.
“Olhos de Inês” fecha o ciclo de antecipações
O single “Olhos de Inês” funciona como porta de entrada para o universo de “contra tempo”. A canção trabalha a tensão entre descrição lírica detalhada e ambiente onírico, procurando desvendar aquilo que se esconde por trás do olhar de alguém. O videoclipe com letra, rodado num dos locais habituais do quotidiano do músico com vista para o Tejo, integra-se na própria narrativa da composição. Margarida Soares assinou a assistência de produção.
Trata-se de uma balada construída em cadência lenta, onde a voz de Ricardo Reis Soares se apoia em guitarras subtis e produção contida. A composição desenha-se através de imagens precisas: o Tejo a correr em prata ao longe, o sol de Março, o céu de Lisboa, auroras embrulhadas pela cor. Há uma tentativa de compreender o que estes olhos verdes guardam, que tristezas transformam em canção, que memórias carregam. A letra move-se entre a observação directa e a suposição imaginada, entre o concreto e o sonhado.
No refrão, Ricardo Reis Soares coloca as perguntas que estruturam toda a composição: o que vês, o que guardas, se choras. A melodia acompanha essa inquietação sem dramatismos forçados, deixando que a curiosidade genuína sobre o outro respire naturalmente. O desfecho traz uma recordação específica onde o tempo parou, guardada numa gaveta junto com sorrisos e pedacinhos de hortelã. É exactamente este tipo de pormenor que define a escrita do cantautor e que atravessa todo o EP “contra tempo”.
A produção do EP ficou a cargo de Miguel Marôco, responsável por moldar as seis faixas que compõem “contra tempo”. O trabalho reflecte a forma como Ricardo Reis Soares observa e processa o mundo à sua volta, transformando episódios corriqueiros, gestos discretos e silêncios em matéria-prima para as canções.

“contra tempo”
“contra tempo” junta seis temas que nascem do olhar atento de Ricardo Reis Soares sobre o dia-a-dia. Há uma velha bailarina (dedicada à avó de Ricardo Reis Soares), há gotas (ou gotinhas) de água, há noites e perguntas sobre quanto tempo resta. O concerto de apresentação de “contra tempo” está agendado para 5 de Fevereiro na Casa Capitão, em Lisboa.
O jazz que Ricardo Reis Soares estudou no Hot Clube aparece nas harmonias, mas sem pesos nem academismos. As canções mantêm-se directas, cantáveis, próximas. Entre os seis temas não há grandes contrastes de energia ou dinâmica: o EP caminha num registo intimista do princípio ao fim, onde cada composição funciona extremamente bem como capítulo de um mesmo caderno de apontamentos sobre pessoas, lugares e momentos que o cantautor cruzou ou imaginou cruzar.

Tracklist de “contra tempo”
- Diz me quanto tempo
- A noite
- A velha bailarina
- Qualquer coisa
- Olhos de Inês
- Gotinha de Água
Informação prática
- Lançamento: 28 de Novembro de 2024
- Single: “Olhos de Inês” (disponível)
- Álbum: “contra tempo”
- Formato: EP com 6 faixas originais
- Produção: Miguel Marôco
- Apresentação ao vivo: 5 de Fevereiro, Casa Capitão, Lisboa
Influências literárias moldam a escrita
Nascido em Braga e actualmente a viver em Lisboa, Ricardo Reis Soares construiu o seu percurso musical através do piano primeiro, da guitarra depois. A formação em jazz no Hot Clube de Portugal marcou a forma como aborda a composição, embora o resultado final se afaste das convenções do género para habitar territórios entre o indie, o pop e a canção de autor.
A literatura de José Saramago e a música de Chico Buarque surgem como referências assumidas por Ricardo Reis Soares. A profundidade poética do primeiro e as cores narrativas do segundo atravessam as composições de “contra tempo”, embora o cantautor encontre voz própria ao traduzir essas influências para o seu contexto pessoal.
As canções nascem da observação atenta do trivial, daquilo que passa despercebido à maioria. Ricardo Reis Soares assume a profundidade com que interpreta o aparentemente superficial como característica central do seu trabalho. Não se trata de romantizar o quotidiano, mas de encontrar nele camadas de significado que justifiquem a atenção e o registo.
Um disco de apresentação sem pressa
“contra tempo” funciona como carta de apresentação de Ricardo Reis Soares enquanto compositor e intérprete. O título sugere movimento em direcção oposta, recusa da velocidade imposta pelo exterior. As seis canções respiram sem urgência artificial.
A formação em jazz deixa marcas subtis na arquitectura das composições, mas Ricardo Reis Soares opta conscientemente por uma linguagem mais acessível. O resultado situa-se algures entre a tradição da canção de autor portuguesa e influências contemporâneas do indie, sem se acomodar completamente em nenhum destes territórios.
O EP chega num momento em que a canção de autor portuguesa procura renovar-se sem perder ligação às raízes. Ricardo Reis Soares junta-se a uma geração de compositores que privilegia a palavra e a melodia, mas sem receio de incorporar texturas e produções mais actuais. “contra tempo” confirma essa vontade de equilíbrio entre tradição e presente, entre observação e ficção, entre o real constatado e a interpretação pessoal que cada um faz da realidade que o rodeia. Recomendamos a escuta, não percas!
Instagram: @ricardoreissoares
Queres ver mais notícias sobre música portuguesa? Carrega aqui! Se estás interessado em concertos ou festivais, dá uma vista de olhos no Calendário de Concertos e Festivais.
