Ricardo Reis Soares editou “contra tempo” a 28 de novembro

Ricardo Reis Soares lançou o EP “contra tempo”, trabalho de estreia do cantautor que traz seis composições originais em português. O single que acompanha esta edição chama-se “Olhos de Inês” e chegou acompanhado de videoclipe realizado por Vitor Martins. Deixamos o vídeo em baixo para veres.

“Olhos de Inês” fecha o ciclo de antecipações

O single “Olhos de Inês” funciona como porta de entrada para o universo de “contra tempo”. A canção trabalha a tensão entre descrição lírica detalhada e ambiente onírico, procurando desvendar aquilo que se esconde por trás do olhar de alguém. O videoclipe com letra, rodado num dos locais habituais do quotidiano do músico com vista para o Tejo, integra-se na própria narrativa da composição. Margarida Soares assinou a assistência de produção.

Trata-se de uma balada construída em cadência lenta, onde a voz de Ricardo Reis Soares se apoia em guitarras subtis e produção contida. A composição desenha-se através de imagens precisas: o Tejo a correr em prata ao longe, o sol de Março, o céu de Lisboa, auroras embrulhadas pela cor. Há uma tentativa de compreender o que estes olhos verdes guardam, que tristezas transformam em canção, que memórias carregam. A letra move-se entre a observação directa e a suposição imaginada, entre o concreto e o sonhado.

No refrão, Ricardo Reis Soares coloca as perguntas que estruturam toda a composição: o que vês, o que guardas, se choras. A melodia acompanha essa inquietação sem dramatismos forçados, deixando que a curiosidade genuína sobre o outro respire naturalmente. O desfecho traz uma recordação específica onde o tempo parou, guardada numa gaveta junto com sorrisos e pedacinhos de hortelã. É exactamente este tipo de pormenor que define a escrita do cantautor e que atravessa todo o EP “contra tempo”.

A produção do EP ficou a cargo de Miguel Marôco, responsável por moldar as seis faixas que compõem “contra tempo”. O trabalho reflecte a forma como Ricardo Reis Soares observa e processa o mundo à sua volta, transformando episódios corriqueiros, gestos discretos e silêncios em matéria-prima para as canções.

Ricardo Reis Soares, capa do álbum "contra tempo"
Ricardo Reis Soares, capa do álbum “contra tempo”

“contra tempo”

“contra tempo” junta seis temas que nascem do olhar atento de Ricardo Reis Soares sobre o dia-a-dia. Há uma velha bailarina (dedicada à avó de Ricardo Reis Soares), há gotas (ou gotinhas) de água, há noites e perguntas sobre quanto tempo resta. O concerto de apresentação de “contra tempo” está agendado para 5 de Fevereiro na Casa Capitão, em Lisboa.

O jazz que Ricardo Reis Soares estudou no Hot Clube aparece nas harmonias, mas sem pesos nem academismos. As canções mantêm-se directas, cantáveis, próximas. Entre os seis temas não há grandes contrastes de energia ou dinâmica: o EP caminha num registo intimista do princípio ao fim, onde cada composição funciona extremamente bem como capítulo de um mesmo caderno de apontamentos sobre pessoas, lugares e momentos que o cantautor cruzou ou imaginou cruzar.

Ricardo Reis Soares ao vivo. Crédito Fotografia: João Vieira
Ricardo Reis Soares ao vivo. Crédito Fotografia: João Vieira

Tracklist de “contra tempo”

  1. Diz me quanto tempo
  2. A noite
  3. A velha bailarina
  4. Qualquer coisa
  5. Olhos de Inês
  6. Gotinha de Água

Informação prática

  • Lançamento: 28 de Novembro de 2024
  • Single: “Olhos de Inês” (disponível)
  • Álbum: “contra tempo”
  • Formato: EP com 6 faixas originais
  • Produção: Miguel Marôco
  • Apresentação ao vivo: 5 de Fevereiro, Casa Capitão, Lisboa

Influências literárias moldam a escrita

Nascido em Braga e actualmente a viver em Lisboa, Ricardo Reis Soares construiu o seu percurso musical através do piano primeiro, da guitarra depois. A formação em jazz no Hot Clube de Portugal marcou a forma como aborda a composição, embora o resultado final se afaste das convenções do género para habitar territórios entre o indie, o pop e a canção de autor.

A literatura de José Saramago e a música de Chico Buarque surgem como referências assumidas por Ricardo Reis Soares. A profundidade poética do primeiro e as cores narrativas do segundo atravessam as composições de “contra tempo”, embora o cantautor encontre voz própria ao traduzir essas influências para o seu contexto pessoal.

As canções nascem da observação atenta do trivial, daquilo que passa despercebido à maioria. Ricardo Reis Soares assume a profundidade com que interpreta o aparentemente superficial como característica central do seu trabalho. Não se trata de romantizar o quotidiano, mas de encontrar nele camadas de significado que justifiquem a atenção e o registo.

Um disco de apresentação sem pressa

“contra tempo” funciona como carta de apresentação de Ricardo Reis Soares enquanto compositor e intérprete. O título sugere movimento em direcção oposta, recusa da velocidade imposta pelo exterior. As seis canções respiram sem urgência artificial.

A formação em jazz deixa marcas subtis na arquitectura das composições, mas Ricardo Reis Soares opta conscientemente por uma linguagem mais acessível. O resultado situa-se algures entre a tradição da canção de autor portuguesa e influências contemporâneas do indie, sem se acomodar completamente em nenhum destes territórios.

O EP chega num momento em que a canção de autor portuguesa procura renovar-se sem perder ligação às raízes. Ricardo Reis Soares junta-se a uma geração de compositores que privilegia a palavra e a melodia, mas sem receio de incorporar texturas e produções mais actuais. “contra tempo” confirma essa vontade de equilíbrio entre tradição e presente, entre observação e ficção, entre o real constatado e a interpretação pessoal que cada um faz da realidade que o rodeia. Recomendamos a escuta, não percas!

Instagram: @ricardoreissoares

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Pedro Ribeiro
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Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro é o fundador do musica.com.pt. Como músico e produtor conta com mais de 25 anos de experiência no mundo da música, tendo participado em projetos como Peeeedro, Moullinex, MAU, entre outros, e tocando em venues como Lux, Maus Hábitos, Plano B, Culturgest, Glasgow School of Arts, entre muitas outras salas e locais em Portugal e no estrangeiro. Compôs música para teatro (Jorge Fraga, Graeme Pulleyn, Teatro Viriato), dança contemporânea (Romulus Neagu, Peter Michael Dietz, Patrick Murys, Teatro Viriato), TV (RTP2) e várias rádios.