Luís Tinoco lança o álbum duplo KOKYUU, que reúne cinco concertos escritos entre 2019 e 2024 para diferentes solistas e orquestra. O compositor português, premiado com o Prémio Pessoa em 2024, apresenta obras onde a respiração, o trabalho e o silêncio ganham dimensão sonora através de interpretações que fogem deliberadamente ao previsível. O teaser de “KOKYUU” de Luís Tinoco encontra-se em baixo.
Quando a pandemia obriga a repensar a respiração
O concerto que dá título ao disco nasceu em 2020, ano em que máscaras se tornaram parte do quotidiano e a simples acção de respirar ganhou peso simbólico. Luís Tinoco transformou essa condição em matéria musical. Kokyuu explora o saxofone alto como metáfora do ar que entra e sai dos pulmões, num diálogo onde a orquestra funciona como extensão amplificada desse órgão vital.
A versão gravada conta com Ricardo Toscano, saxofonista formado no universo do jazz, cuja abordagem tímbrica difere da tradição erudita do instrumento. Esta escolha não é acidental. A sonoridade menos polida, mais visceral, empresta à obra uma camada interpretativa que a afasta do virtuosismo decorativo e a aproxima da urgência física de quem precisa de ar para sobreviver.

Três línguas, três tradições de trabalho manual
Canções de Trabalho traz Lívia Nestrovski como solista vocal numa trilogia que atravessa Portugal, Cabo Verde e Brasil. Luís Tinoco parte de melodias tradicionais associadas ao labor físico e reconstrói-as em ambiente orquestral sem as domesticar.
A primeira canção, “De riba se ceifa o pão”, resgata o canto de ceifa transmontano. “M’ca crê dzê” mergulha na tradição cabo-verdiana da tabanka. “Esta roda” recupera cantigas de roda brasileiras. A voz de Lívia Nestrovski nestes temas preserva a ligação ao gesto manual original enquanto a orquestra comenta, amplia e por vezes confronta essas memórias sonoras.
O Concerto para Violoncelo n.º 2 foi pensado para Filipe Quaresma, músico que transita entre barroco e contemporâneo com igual à-vontade. Luís Tinoco aproveita essa amplitude para construir uma obra onde referências históricas surgem filtradas por uma escrita que nunca cai na citação óbvia.

Já o Concerto para Acordeão nasceu da colaboração com João Barradas, instrumentista que tem vindo a redefinir as possibilidades do acordeão fora do contexto folclórico. A partitura exige técnicas expandidas e explora registos que fogem ao timbre imediatamente reconhecível do instrumento, transformando-o em fonte de texturas inesperadas.
Entre Silêncios, concerto para clarinete interpretado por Horácio Ferreira, incorpora espacialização como elemento estrutural. Durante a performance ao vivo, instrumentistas movem-se pela sala, alterando a percepção acústica do público.
A Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob direcção de Pedro Neves, grava os três primeiros concertos. A Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música interpreta os dois restantes, com Joana Carneiro no concerto para acordeão e Bastien Stil no concerto para clarinete. As diferenças tímbricas entre as duas formações enriquecem o conjunto sem criar descontinuidade.
Alinhamento de “KOKYUU” de Luís Tinoco
CD 1 (53:26)
Orquestra Metropolitana de Lisboa | Pedro Neves, maestro
1. Kokyuu – Concerto para Saxofone Alto e Orquestra (16:46)
Ricardo Toscano, saxofone
Canções de Trabalho
2. I. De riba se ceifa o pão (6:47) – Lívia Nestrovski, voz
3. II. M’ca crê dzê (4:56) – Lívia Nestrovski, voz
4. III. Esta roda (7:29) – Lívia Nestrovski, voz
Concerto para Violoncelo n.º 2 | Filipe Quaresma, violoncelo
5. I. Animato (6:06)
6. II. Larghetto (6:36)
7. III. Strepitoso (4:41)
CD 2 (37:20)
Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música | Gravações ao vivo
Concerto para Acordeão e Orquestra | João Barradas, acordeão | Joana Carneiro, maestra
1. I. Largo, meditativo (9:27)
2. II. Cadenza; Vivo, molto energico (9:15)
3. Entre Silêncios – Concerto para Clarinete e Orquestra (18:35) – Horácio Ferreira, clarinete | Bastien Stil, maestro
Ficha técnica de KOKYUU
Compositor: Luís Tinoco
Editora: Artway
Data de lançamento: 28 de novembro de 2024
Formato: CD duplo e plataformas digitais
Orquestras: Orquestra Metropolitana de Lisboa, Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música
Maestros: Pedro Neves, Joana Carneiro, Bastien Stil
Solistas: Ricardo Toscano (saxofone), Lívia Nestrovski (voz), Filipe Quaresma (violoncelo), João Barradas (acordeão), Horácio Ferreira (clarinete)
A não perder…
Luís Tinoco consolidou ao longo de três décadas uma linguagem compositiva que recusa tanto o academismo estéril como a sedução fácil. Formado em Lisboa e aperfeiçoado no Reino Unido, onde obteve mestrado na Royal Academy of Music e doutoramento em York, construiu um catálogo onde rigor técnico e comunicabilidade coexistem sem se anularem.
O percurso inclui residências no Teatro Nacional de São Carlos e na Casa da Música, edições pela University of York Music Press e gravações monográficas pela Gulbenkian. Em 2024, o Prémio Pessoa veio reconhecer um trajecto sustentado que nunca procurou atalhos nem se deixou seduzir por modismos passageiros.
KOKYUU confirma essa consistência. São cinco obras distintas que partilham uma mesma atenção ao detalhe, uma mesma recusa do gesto vazio, uma mesma capacidade de transformar material simples em arquitectura complexa sem perder claridade. Luís Tinoco continua a escrever música que exige escuta atenta mas recompensa quem lhe dedica tempo. Não percas!
Instagram: @luistinoco_music
Artway: artway.pt | Instagram: @artway_management
Queres ver mais notícias sobre música portuguesa? Carrega aqui! Se estás interessado em concertos ou festivais, dá uma vista de olhos no Calendário de Concertos e Festivais.
