Manuel Teles, saxofonista português com percurso consolidado entre Milão e Lisboa, apresentou Stepdance a 14 de novembro pela editora britânica GB Records. O disco resulta da parceria com a pianista ítalo-britânico-russa Alexandra Tchernakova e percorre territórios onde jazz, música contemporânea e tradição clássica se cruzam sem pedir licença. O repertório escolhido funciona como mapa afectivo: os compositores aqui reunidos marcaram directamente a trajectória dos dois intérpretes, seja através de colaborações concretas, seja pelo peso das suas obras na formação artística de ambos.
A escolha de abrir com Horn Please de Mário Laginha define logo o território. A peça respira com calma, um despertar meditativo que funciona como introdução ao repertório. O saxofone e o piano de Alexandra Tchernakova desenham melodias sem pressa, estabelecendo desde o início que este não é disco para ouvir em modo multitasking. Fica a performance de “Horns Please” em baixo, gravada no ISEG em Lisboa:
“Stepdance”: Repertório que resiste a gavetas
Entre a abertura e o fecho com a faixa-título Stepdance de António Victorino D’Almeida, o álbum conta-nos uma história com dinâmicas, altos e baixos, num tom intimo e evocativo. A “Suite Op. 55” de Fazil Say segue-se a “Horns Please” com a intensidade diferente que lhe é devida. O compositor turco escreve música onde a herança da Anatólia surge reconfigurada através de linguagem contemporânea. Não se trata de world music diluída nem de exotismo calculado, mas de síntese genuína entre tradições. Manuel Teles e Alexandra Tchernakova entregam-se a estas páginas com o respeito e rigor técnico, mas também com a disponibilidade emocional que a música de Fazil Say exige.
Harlesden e Allegrasco de Gavin Bryars trazem contenção meditativa e melancólica que evocam pinturas românticas e paisagisticas de Turner ou Constable. Manuel Teles demonstra aqui versatilidade técnica ao transitar entre saxofones soprano, alto e tenor conforme cada peça exige, mas mais importante: demonstra maturidade interpretativa ao saber quando recuar e deixar o silêncio falar e respirar.

Florida to Tokyo, sonata para saxofone alto e piano de Chick Corea, coloca o disco noutro registo. Chick Corea transitou a vida inteira entre jazz e música de concerto, e esta obra reflecte essa dualidade sem complexos. Há momentos de fusion jazz onde o ritmo acelera e pede improvisação, mas há também estruturas formais que remetem para sonatas clássicas. A execução dos dois músicos captura esta tensão produtiva entre liberdade e forma.
Para terminar o álbum, o tema Stepdance de António Victorino D’Almeida encerra em tom de homenagem e com chave de ouro. É um tema com várias dinâmicas, tal e qual como este álbum, onde a fusão entre o clássico e o jazz mais uma vez é nota constante e executado magistralmente por Manuel Teles e Alexandra Tchernakova.
Alinhamento de “Stepdance”:
- Horns Please, de Mário Laginha
- Suite for Alto Saxophone and Piano, Op55: I. Allegro, de Fazil Say
- Suite for Alto Saxophone and Piano, Op55: II. Andante, de Fazil Say
- Suite for Alto Saxophone and Piano, Op55: III. Presto, de Fazil Say
- Suite for Alto Saxophone and Piano, Op55: IV. Ironic, de Fazil Say
- Suite for Alto Saxophone and Piano, Op55: V. Andantino, quasi lullaby, de Fazil Say
- Suite for Alto Saxophone and Piano, Op55: VI. Finale. Presto, de Fazil Say
- Harlesden, de Gavin Bryars
- Florida to Tokyo, Sonata for Alto Saxophone and Piano, de Chick Corea
- Allegrasco, de Gavin Bryars
- Stepdance, de António Victorino D’Almeida
Gravação em Bayreuth e produção cuidada
O álbum de Manuel Teles e Alexandra Tchernakova foi captado em fevereiro de 2025 no Steingraeber-Haus, em Bayreuth, Alemanha. A escolha do espaço não foi casual: a acústica da sala e a qualidade dos instrumentos Steingraeber (que apoiaram o projecto) permitiram condições de topo para captação de alta fidelidade. Louis McGuire, engenheiro de som baseado em Berlim, assinou captação, edição e masterização em Dolby Atmos. O resultado técnico serve a música sem se impor sobre ela.
A produção executiva ficou a cargo da própria GB Records, com Anna Tchernakova e Gavin Bryars envolvidos no processo. A distribuição através da Proper Music garante presença física e digital nas plataformas habituais.

Informação técnica, álbum “Stepdance” de Manuel Teles e Alexandra Tchernakova
Álbum: Stepdance
Artistas: Manuel Teles (saxofones soprano, alto, tenor) e Alexandra Tchernakova (piano)
Editora: GB Records
Distribuição: Proper Music (física e digital)
Lançamento: 14 de novembro de 2025
Repertório: Mário Laginha, Gavin Bryars, Chick Corea, Fazil Say, António Victorino D’Almeida
Gravação: Steingraeber-Haus, Bayreuth (Alemanha), fevereiro 2025
Engenheiro de som: Louis McGuire (Berlim)
Apoios: Fundação GDA e Steingraeber
Contacto imprensa: 912 247 772
Trajectória de Manuel Teles
Manuel Teles acumula mais de vinte prémios nacionais e internacionais. Formou-se no Conservatório Giuseppe Verdi de Milão com distinção máxima, sob orientação de Mario Marzi, depois de passar pelo Conservatório de Palmela e pela Escola de Música do Metropolitano de Lisboa com João Pedro Silva.
O saxofonista tocou em salas como Teatro alla Scala, Centro Cultural de Belém, Teatro Filarmonico di Verona, Casa da Música, Auditorium Parco della Musica e Gulbenkian. Colaborou com formações como Orchestra Filarmonica della Scala, Divertimento Ensemble e Orquestra Metropolitana de Lisboa. Trabalhou ao lado de Salvatore Sciarrino, Myung-Whun Chung, Gavin Bryars, Luís Tinoco e António Victorino D’Almeida, entre outros.
O interesse paralelo pelas tradições musicais do sudeste europeu e da Índia levaram Manuel Teles a colaborar com músicos como Hariprasad Chaurasia. Em 2019 Manuel Teles recebeu a Medalha de Prata de Mérito Cultural de Palmela. Com o percussionista Paulo Amendoeira forma o Astrus Duo, tendo lançado em 2022 o álbum Ascolta! com obras de compositores portugueses contemporâneos.
O disco a solo Lisboa-Milano (Stradivarius, 2023) apresentou obras de Salvatore Sciarrino, Luca Francesconi, João Pedro Oliveira, Christopher Bochmann e Vincenzo Parisi. A revista Amadeus descreveu a sua forma de tocar como “tratar o saxofone como um miúdo rebelde” – descrição que o músico abraça sem reservas, e que podemos ouvir ao longo deste registo.
Disco que justifica a atenção
Stepdance não tenta ser revolução nem manifesto. Funciona como diálogo honesto entre dois músicos tecnicamente sólidos e um conjunto de compositores cujas obras merecem ser ouvidas com esta dedicação interpretativa. O disco evita facilidades e vive perfeitamente entre 2 mundos: O rigor e formalidade do clássico, a rebeldia e improvisação do jazz. Não há concessões ao comercial, não há tentativas de agradar a algoritmos, não há medo de pedir concentração ao ouvinte.
A aposta de Manuel Teles e Alexandra Tchernakova passa por construir um repertório que faça sentido enquanto conjunto e narrativa, não enquanto compilação aleatória de peças bonitas. E conseguem. O resultado é um trabalho coeso, bem executado, que beneficia de audições repetidas e que provavelmente vai envelhecer tão bem como um Vinho do Porto reserva. Fica a recomendação para quem procura música que não infantiliza nem facilita, mas que compensa a atenção investida. Não percas!
Site Oficial Manuel Teles: manuelteles.com | Instagram Manuel Teles: @manuel.teles_
Site Oficial Alexandra Tchernakova: alexandratchernakova.com | Instagram Alexandra Tchernakova: @alexandratchernakova
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