O sexteto portuense ONOMA lançou o seu primeiro álbum de originais homónimo “Onoma” dia 5 de Dezembro, em todas as plataformas digitais do costume. Com edição fisica prevista para Janeiro de 2026, o disco homónimo reúne nove faixas que cruzam jazz contemporâneo com rock, funk e hip-hop. Fica o vídeo do single “SH-Hallucination” em baixo para abrir o apetite.
O álbum ONOMA: nove faixas, nove memórias
“SH – Hallucination“, o single e quinta faixa, é talvez dos momento mais grandiosos e up-tempo do disco, onde as diversas influências se fazem sentir com maior evidência – Dizzy Gillespie, Snarky Puppy, Sun-Ra, Herbie Hancock, e por aí a fora. As sincopas nervosas da bateria, os elementos de percussão afro-latina, com o contrabaixo a ancorar tudo com linhas que pedem movimento, criam uma base bastante sólida para os sopros, piano e sintetizador brilharem e nos embalarem nesta viagem marcadamente jazz com momentos bastante ritmados.
A abertura do álbum fica a cargo de “Miraculo“. O tema arranca com energia contida que vai crescendo, os sopros e pianos a dialogarem enquanto a secção rítmica vai pontuando com pratos e chimes, remetendo-nos a um universo próximo de John Coltrane ou aos álbuns iniciais de Cinematic Orchestra, até que chega o plot twist: de repetente viramos para um universo próximo do free jazz, com um momento mais melódico a meio que nos remete a ritmos latinos e africanos, antes de regressarmos à exploração sonora anterior.
“Pueblo” devolve-nos a territórios menos conturbados e aos ritmos quentes. O tema começa com o contrabaixo a marcar a base que serve ao crescimento do tema, que se vai construindo por caminhos mais densos, com texturas percussivas e rítmicas que nos transportam para territórios quase tribais sem abandonar a matriz jazzística. “Viriato“ é a terceira faixa, e tem aqui algo de visceral, uma raiz que se entranha nas linhas melódicas sem cair no óbvio, enquanto somos atirados no seu turbilhão e carrossel de altos-e-baixo bem pontuados pela secção rítmica.
“Olhos de Elefante” é a quarta faixa e é construida de forma paciente, fortalecendo-se entre sopros, rítmos e acordes de piano até que muda de registo: o piano toma conta do tema, com arpegios a aumentarem de intensidade até ao respiro final dos sopros. “Letter to a Lost Traveller” segue-se a “SH – Hallucination” e ocupa o sexto lugar deste álbum, sendo um dos temas com uma toada mais contemplativa, introspectiva e baseada em influências de smooth jazz.
“El Mosquito” (talvez a nossa faixa preferida) traz-nos uma faixa bastante brincalhona onde o rítmo oscila entre o hip-hop, jazz e rock sem pedir perdão, enquanto a restante instrumentação e jogos entre instrumentos realmente nos remete ao zumbido do mosquito e às suas trajétorias irregulares de voo, ao momento da picada e comichão, onde o mosquito embriagado continua incessante a voar e zumbir durante a noite fora, não nos deixando dormir em momento algum.
“Hermenêutica“, fiel ao nome, pede interpretação: é jazz cerebral que vai progredindo com o tempo e que não dispensa a emoção, com arranjos e efeitos soturnos que vão abrindo e revelando um tema que revela diferentes camadas a cada audição. O disco fecha com “Cais das Colunas“, tema que evoca Lisboa sem a nomear directamente, uma despedida luminosa e com várias orquestrações e solos que deixam vontade de voltar ao início.
O disco foi gravado em janeiro de 2025 nos estúdios Arda Recorders, no Porto. Zé Nando Pimenta assumiu a produção e Iúri Oliveira acrescentou percussão. O resultado são nove composições originais assinadas pelos vários elementos da banda, cada uma com personalidade distinta mas unidas por um fio condutor: a vontade de fazer música jazz sem fronteiras e sem pedir licença aos manuais.
“Onoma” é um álbum recheado de vários momentos, com solos, improvisos, momentos mais orquestrados e melódicos, e que não se esgota facilmente, convidando-nos a ouvi-lo várias e várias vezes. Pela nossa parte, ficamos extremamente felizes por ver projetos nacionais deste calibre a nascer e a proliferar, e será apenas uma questão de tempo até podermos ver os Onoma a chegarem a palcos internacionais de renome.

Tracklist do álbum ONOMA
- Miraculo (com Iúri Oliveira)
- Pueblo (com Iúri Oliveira)
- Viriato
- Olhos de Elefante
- SH – Hallucination (com Iúri Oliveira)
- Letter to a Lost Traveller
- El Mosquito (com Iúri Oliveira)
- Hermenêutica
- Cais das Colunas
Onoma: Jazz contemporâneo com ADN português
Os ONOMA nasceram em 2023 dentro dos corredores da ESMAE – Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo. Seis músicos que se encontraram entre aulas de harmonia e sessões de jam, e que decidiram transformar essa cumplicidade em projecto. O nome, emprestado do grego antigo, significa palavra ou nome. E há algo de certeiro nessa escolha: este é um grupo que procura dar nome ao que ainda não existe, compor em vez de reproduzir, e criar um vocabulário próprio numa linguagem que tem mais de cem anos.
A formação junta Duarte Júlio no contrabaixo, Hugo Santos na bateria, Igor Cavaz no saxofone tenor, Lucas Oliveira no saxofone alto, Simão Raimundo no piano e teclados, e Vasco Silva no trompete e fliscorne. Todos passaram ou ainda passam pela ESMAE, instituição que nos últimos anos se tem afirmado como viveiro de talentos do jazz nacional.
A juventude da banda nota-se na ousadia das composições e na ausência de reverência excessiva aos cânones. Estes seis músicos cresceram a ouvir tanto John Coltrane como Kendrick Lamar, tanto Weather Report como Anderson .Paak. E essa dieta musical ecléctica transparece no disco sem que se perca coerência. Cada faixa sabe a quem a compôs, mas todas soam a ONOMA.

O percurso até ao álbum de estreia foi rápido mas consistente. Em 2024, os ONOMA venceram o Concurso Talentos Ageas CoolJazz by Smooth FM e o Concurso de Bandas Novos Valores, o que lhes abriu portas para actuações no festival Ageas Cooljazz e na Festa do Avante. Este ano, conquistaram a Chamada Aberta do festival Que Jazz É Este? em Viseu, somando mais uma vitória a um currículo que começa a ganhar peso. Passaram ainda por palcos como o Barracuda, o Café Concerto Francisco Beja, o GrETUA e o OVinil.
Concertos Confirmados Para 2026
O lançamento do disco físico em janeiro de 2026 será acompanhado por uma série de concertos. Estão confirmadas datas na região norte, Évora e Algarve, embora os locais e horários específicos ainda não tenham sido divulgados. Para quem quiser acompanhar, as redes sociais da banda são o melhor ponto de partida. As datas confirmadas são as seguintes:
- 6 de Fevereiro – Armazém 8, em Évora
- 8 de Fevereiro – Cantaloupe Café, em Olhão
Uma nova voz no jazz português
Classificar a música dos ONOMA dentro de uma gaveta específica seria (bastante) redutor. O jazz é a base, mas as paredes são porosas. Há momentos em que o fusion dos anos 70 parece espreitar, outros em que se ouvem ecos de rock ou hip-hop instrumental à la Robert Glasper. Tudo isto convive sem atropelos, numa produção que Zé Nando Pimenta equilibrou e trabalhou de forma excelente em estúdio.
Os ONOMA chegam neste momento fértil com um disco que merece bastante atenção: bem gravado, bem produzido, com composições talentosas que arriscam sem perder o chão. É o primeiro álbum, e nota-se aqui e ali a vontade de mostrar tudo de uma só vez, com uma maturidade e irreverência acima da média que realmente transformam este registo numa referência (esperamos/para nós) já indiscutível do jazz nacional.
O álbum “ONOMA” já está disponível no Spotify, Apple Music e YouTube. Em janeiro, chega às lojas em formato físico. Até lá, há nove faixas para descobrir e redescobrir, e nós recomendamos bastante (mesmo). Este é daqueles álbuns que, se gostas de jazz, não podes mesmo perder.
Instagram: @___onoma___
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