Tiago Coimbra lança OBOE + com criação inédita portuguesa

Tiago Coimbra acaba de lançar OBOE +, o seu primeiro álbum a solo, num gesto que coloca a criação contemporânea portuguesa para oboé num patamar de visibilidade internacional. O disco reúne obras escritas de raiz por nove compositores nacionais e chegou às plataformas digitais no passado dia 20 de novembro, um dia depois da apresentação oficial no The Alchemist, no Porto.

Este não é mais um registo de repertório clássico consagrado. Tiago Coimbra quis expandir activamente as possibilidades do oboé enquanto instrumento solista na música dos nossos dias, e para isso trabalhou directamente com António Chagas Rosa, Carlos Caires, Cândido Lima, João Moreira, Fábio Chicotio, Sérgio Azevedo, Tiago Jesus, Mariana Vieira e Luís Carvalho. O resultado cruza linguagens acústicas com electrónica, sem medo de romper com convenções ou de explorar territórios sonoros ainda pouco pisados pelo instrumento. Fica o vídeo de “Lenda de boutès” em baixo.

“Oboe +”: Um disco contemporâneo

OBOE + nasceu da vontade de Tiago Coimbra em contribuir para um repertório que sempre foi escasso. O oboé, apesar da sua presença consolidada em orquestras e música de câmara, raramente foi tratado como protagonista na música contemporânea portuguesa. Este álbum inverte essa lógica. Cada compositor recebeu carta branca para escrever sem limitações técnicas pré-definidas, sabendo que teriam em Tiago Coimbra um intérprete tecnicamente preparado e disponível para explorar todas as possibilidades do instrumento.

A diversidade das peças reflecte precisamente essa liberdade criativa. Há obras que dialogam com a tradição camerística, outras que se abrem a paisagens electroacústicas, algumas que testam os limites físicos do instrumento. O músico não se limitou a encomendar partituras: esteve presente em todo o processo criativo, discutindo ideias, testando passagens, sugerindo alterações. Esta proximidade entre compositor e intérprete resultou num disco coeso, apesar da pluralidade de linguagens.

A edição fica a cargo da Artway, editora que tem vindo a apostar na divulgação de criação portuguesa contemporânea. A gravação revela cuidado técnico e clareza na captação, permitindo que a complexidade das texturas seja percebida sem esforço. Não há saturação desnecessária nem reverberações artificiais que disfarcem falhas: o que se ouve é o oboé de Tiago Coimbra em toda a sua crueza e honestidade interpretativa.

Tiago Coimbra, capa do álbum "Oboe +"
Tiago Coimbra, capa do álbum “Oboe +”

Alinhamento de “Oboe +” de Tiago Coimbra

  1. Lenda de boutès
  2. One from All-in-One
  3. Ôboâ, contos de infância
  4. Knurren
  5. Up a Notch
  6. The Starry Night
  7. À procura do que não se perdeu
  8. Auto-gravura
  9. 3 Caprichos sobre temas de Richard Strauss: No. 1, Walzer
  10. 3 Caprichos sobre temas de Richard Strauss: No. 2, Romanze
  11. 3 Caprichos sobre temas de Richard Strauss: No. 3, Lustig

Carreira construída entre palcos e pedagogia

Tiago Coimbra, nascido em Vila Nova de Gaia em 1990, é actualmente oboé solista da Göttinger Symphonieorchester e da Orquestra Filarmonia das Beiras. A sua trajectória internacional inclui colaborações regulares como oboísta principal convidado em orquestras de referência como a MDR Sinfonieorchester Leipzig, a Orquesta Sinfónica del Gran Teatre del Liceu (Barcelona) ou a NDR Radiophilharmonie Hannover.

Tiago Coimbra
Tiago Coimbra

Estudou na Suíça, onde completou dois mestrados: um em Oboé Solista com Emanuel Abbühl (Basileia) e outro em Orquestra com Thomas Indermühle (Zurique). Foi também discípulo de Maurice Bourgue na Académie Musicale de Villecroze. Doutorado em Música pela Universidade de Aveiro, Tiago Coimbra mantém actividade pedagógica na Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco.

Em 2023, estreou mundialmente o concerto para oboé e orquestra Resilience, de Félix Turrión Eichler, com a Orquesta Filarmónica de Málaga. No mesmo ano, apresentou a edição crítica do Concerto de Outono de Jorge Peixinho, obra que editou em coautoria com o oboísta Ricardo Lopes e que foi estreada no festival Reencontros da Música Contemporânea, em Aveiro. A gravação da Sinfonia Concertante para oboé e flauta, K. 320, de Mozart, valeu-lhe a Medalha de Ouro Mozart atribuída pela associação austríaca Mozartgemeinde Wien.

Compromisso com o futuro

Tiago Coimbra deixa claro que OBOE + não pretende ser um ponto de chegada, mas antes um catalisador e semente para o futuro. O músico espera que as obras aqui reunidas sejam interpretadas por outros oboístas e que sirvam de incentivo para que mais compositores escrevam para o instrumento. Num país onde a criação contemporânea muitas vezes fica confinada a círculos restritos, iniciativas como esta abrem caminho para que o repertório português circule e se afirme internacionalmente.

Este álbum prova que há espaço para a música contemporânea portuguesa respirar fora dos festivais especializados. Tiago Coimbra demonstra que rigor técnico e ousadia criativa não são incompatíveis, e que o oboé pode e deve ter voz própria na música que se faz hoje.

O disco é uma edição Artway e pode ser adquirido através dos canais habituais de distribuição digital. OBOE + já está disponível nas principais plataformas digitais de streaming.

Instagram: @tcoimbra16 | Site oficial Artway: www.artway.pt | Instagram Artway: @artway_management

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Pedro Ribeiro
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Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro é o fundador do musica.com.pt. Como músico e produtor conta com mais de 25 anos de experiência no mundo da música, tendo participado em projetos como Peeeedro, Moullinex, MAU, entre outros, e tocando em venues como Lux, Maus Hábitos, Plano B, Culturgest, Glasgow School of Arts, entre muitas outras salas e locais em Portugal e no estrangeiro. Compôs música para teatro (Jorge Fraga, Graeme Pulleyn, Teatro Viriato), dança contemporânea (Romulus Neagu, Peter Michael Dietz, Patrick Murys, Teatro Viriato), TV (RTP2) e várias rádios.