Entre 4 de Outubro e 30 de Novembro, a Sala do Capítulo do Museu de Leiria dedica-se a Tony Allen, um dos bateristas mais transformadores da história da música contemporânea. Tony Allen (1940–2020) não foi apenas um músico tecnicamente soberbo, foi também o criador de uma linguagem rítmica inteiramente nova que fundiu tradições africanas com jazz e funk, dando origem ao Afrobeat.
Da autodidaxia à reinvenção da bateria
Nascido na Nigéria, Tony Allen começou a tocar bateria de forma autodidata, desenvolvendo uma abordagem profundamente pessoal ao instrumento. Ao contrário dos bateristas convencionais da época, não se limitava a marcar o tempo, transformava a bateria num organismo vivo, capaz de dialogar com múltiplas camadas sonoras em simultâneo.
A sua técnica singular baseava-se na independência absoluta dos quatro membros, permitindo-lhe criar polirritmias complexas que pareciam impossíveis para um único músico executar. Cada mão e cada pé operavam em dimensões temporais distintas, tecendo padrões que desafiavam a lógica ocidental do compasso.
A parceria que mudou a música africana
A colaboração de Tony Allen com Fela Kuti nos anos 60 e 70 revelou-se determinante para ambos. Juntos, criaram o Afrobeat, um género que fundia os ritmos tradicionais iorubás com a intensidade do jazz modal, a síncope do funk e a consciência política do momento. “Sem Tony Allen, não haveria Afrobeat“, declarou Fela Kuti, reconhecendo que os padrões rítmicos desenvolvidos pelo baterista eram a espinha dorsal daquela sonoridade.
Durante décadas com a banda Africa 70, Tony Allen estabeleceu os alicerces de um som que transcenderia fronteiras geográficas e temporais. As suas composições rítmicas eram narrativas complexas que sustentavam e impulsionavam as composições.
Um legado que atravessa gerações
Após separar-se de Fela Kuti nos anos 70, Tony Allen iniciou uma carreira a solo que provaria a sua versatilidade e relevância duradoura. Colaborou com nomes tão diversos como Blur, Red Hot Chili Peppers, Charlotte Gainsbourg e Gorillaz, demonstrando que a sua linguagem rítmica se adaptava organicamente a contextos musicais completamente distintos.
O seu álbum “Rejoice” (2020), gravado em parceria com o poeta Sébastien Tellier, mostrou um Tony Allen ainda experimentador e curioso meses antes da sua morte. Mesmo na última fase da vida, recusava-se a repetir fórmulas ou a acomodar-se num estilo fixo. O que distinguiu Tony Allen de tantos outros bateristas tecnicamente brilhantes é a dimensão emocional e narrativa do seu trabalho, para além do contexto sócio-politico que o moldaram. Os seus padrões rítmicos não eram apenas exercícios de destreza, contavam histórias, criavam atmosferas, comentavam o mundo. Havia sempre alma por trás da precisão métrica.
Esta dimensão humana do seu trabalho tornou-o particularmente relevante para as gerações actuais de músicos, que procuram equilibrar domínio técnico com expressividade genuína e original. Tony Allen demonstrou que rigor e emoção não são forças opostas e que quando integradas, potenciam-se mutuamente.
Capítulo: reimaginar o universo de Tony Allen
A exposição na Sala Capítulo do Museu de Leiria propõe uma abordagem invulgar à memória do baterista. Leonardo Rito, pintor contemporâneo, foi convidado a imaginar como seria uma capa de álbum de Tony Allen nos dias de hoje, um exercício especulativo que procura capturar visualmente a energia e complexidade da sua música.
Paralelamente, os percussionistas Vasco Silva e Pedro Marques, representantes de uma geração mais jovem de músicos portugueses, aceitaram o desafio de responder musicalmente ao legado de Tony Allen. O concerto e conversa marcada para 19 de Outubro é uma interpretação pessoal que explora a bateria como território de invenção, seguindo o espírito experimental que caracterizava Tony Allen.
Esta terceira edição do Capítulo mantém a estrutura das anteriores dedicadas a Raymond Scott e Delia Derbyshire: uma exposição trimestral que combina biografia, fonogramas e trabalho visual inédito, culminando num concerto que estabelece diálogo entre o passado e o presente.
Sobre Leonardo Rito
Leonardo Rito nasceu em 1978 e formou-se em Artes Plásticas na ESAD de Caldas da Rainha, onde concluiu mestrado em 2012. Desde 1997 expõe regularmente em Portugal e no estrangeiro, com destaque para as séries “Murdering the Masters” (2015-2016) e exposições como “Unknown Pleasures” e “God, Love & Death”. Participou em residências artísticas no Sindicato dos Pintores, Eletricidade Estética e Casa Varela. A sua prática articula pintura, desenho e escrita, explorando temas como morte e espiritualidade, numa abordagem que unifica linguagem visual e textual inspirada nas experiências da infância em contexto religioso.

Sobre Pedro Marques
Pedro Marques recebeu a primeira bateria aos 7 anos em Leiria e formou a sua primeira banda aos 12. Actualmente integra os First Breath After Coma e é co-fundador da Casota Collective, onde trabalha como produtor musical e realizador. Formado no Hot Clube de Portugal, distingue-se pela expansão das possibilidades sonoras da bateria através de triggers, pads e instrumentos orgânicos de construção própria.

Sobre Vasco Silva
Vasco Silva começou a criar ritmo nos tachos dos avós antes de iniciar aulas de bateria aos 9 anos. Dos Backwater & The Screaming Fantasy nasceram os projectos Surma e Whales, com quem editou um álbum em 2018 e tocou por Portugal e Europa. Participou em residências artísticas como o SILVAR e Nascentes, desenvolvendo paralelamente actividade como produtor na Omnichord. Prepara actualmente o lançamento dos Terrible Mistake.

Redescobrindo o arquivo pessoal
Um dos aspectos singulares desta iniciativa da CCER MAIS, em coprodução com o Museu de Leiria, é a apresentação de fonogramas provenientes de arquivos pessoais. Esta escolha curatorial afasta-se da abordagem habitual dos “grandes êxitos”, permitindo descobrir gravações menos conhecidas que revelam diferentes facetas do trabalho de Tony Allen.
O modelo expositivo integra ainda o percurso regular do Museu de Leiria onde os visitantes são conduzidos através das colecções permanentes antes de chegarem à Sala do Capítulo, criando pontes inesperadas entre património histórico local e memória musical global.

Como chegar ao Museu de Leiria
A exposição vai ficar patente até dia 30 de Novembro, com um dia muito especial pelo meio: no dia 19 de Outubro às 18h30 vai haver uma conversa e concerto com os artistas Leonardo Rito, Pedro Marques e Vasco Silva. O Museu de Leiria fica situado na Rua Tenente Valadim, nº41 em Leiria. A entrada para o Capítulo #3 é gratuita, mas sujeita a marcação prévia. Contacta o Museu através do e-mail museudeleiria@cm-leiria.pt ou através do número 244 839 677.
Não percas!
A exposição de Tony Allen permanece acessível (e com entrada gratuita) na Sala Capítulo do Museu de Leiria até 30 de Novembro, antes de dar lugar ao último capítulo do ano dedicado a Ryuichi Sakamoto. Para quem procura compreender como um único músico pode alterar o rumo da música popular, esta é uma oportunidade rara de mergulhar no universo de alguém que transformou limitações técnicas em possibilidades infinitas, marcando gerações. Podes ver este e outros eventos nas redes sociais do Museu de Leiria, no Facebook e Instagram!
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