Ao fim de 17 anos, Seu Jorge mostra-nos “The Other Side” numa lição de amor à arte

Se fecharem os olhos e pensarem em Seu Jorge, acho que é bastante provável que a vossa mente viaje imediatamente para dentro de um carro em pleno verão. Para quem cresceu em Portugal como eu, o músico brasileiro foi banda sonora oficial de muitas viagens em família. Lembro-me perfeitamente de ir na estrada com a minha mãe, as janelas abertas e nós as duas a cantar aos berros a letra da “Amiga da Minha Mulher” ou mesmo a sofrer com uma das músicas preferidas dela, “É Isso Aí”.

Essa energia contagiante que estávamos habituados e associávamos ao artista fica um pouco de fora neste novo álbum. Por isso, quando carreguei no “play” para ouvir “The Other Side”, lançado no passado dia 8 de maio, o impacto foi imediato. Álbum este que demorou impressionantes 17 anos a chegar até ao público, visto que o mesmo nasceu em 2009, consolidando-se como uma verdadeira lição de desinteresse ao mercado, porque procura uma verdadeira prova de amor à arte!

Se te perguntas o porquê de tanta demora, a resposta explica-se por uma junção de paciência, rigor e respeito pela música e sobretudo os seus ouvintes. Se estás curioso, fica aqui em baixo a faixa “Girl You Move Me” que conta já com videoclipe oficial.

Nascimento em Los Angeles

A história de “The Other Side” começou quando Seu Jorge decidiu mudar-se com a família para os EUA. Foi a cerca de 10 mil quilómetros do Brasil, no estúdio do produtor Mario Caldato Jr. em Los Angeles, que o artista começou a definir este projeto. Nesse ambiente de partilha familiar, o álbum construiu-se com calma e foco na busca de uma sonoridade própria. Um dos objetivos era claro, ou seja, queriam resgatar a nostalgia do Brasil dos anos 60 e 70 com traços da música popular brasileira de João Gilberto e do samba de Jorge Ben Jor.

Seu Jorge desenhou e planeou cada detalhe dos arranjos em conversas longas com os músicos, alterando as faixas quando a inspiração pedia, sem stress! Em entrevista ao g1, o músico confessou que “é uma grande oportunidade de mostrar algo diferente do que tenho feito sucessivamente”.

Em 2019, dez anos depois, o projeto estava completamente acabado para ser editado, mas foi aí que o destino trocou as voltas e a pandemia instalou-se, deixando o mundo em suspenso. Seu Jorge nestes critérios e condições recusou-se a lançar o álbum por ser algo pessoal e não conseguir ter contacto pessoalmente com o público, por isso decidiu esperar mais seis anos até sentir o momento certo.

Um projeto pensado para ser bonito

Ao contrário dos seus projetos mais antigos, o “The Other Side” entra por caminhos de pura calma, dominado sobretudo pelo clássico que nunca falha, ou seja, a voz e guitarra. Das 11 faixas que compõem o álbum somente uma é composta pelo artista, nas restantes ele assume o papel de intérprete assumindo a sua voz profunda como um instrumento, cantando também em inglês.

Para além de regravações de músicas da cultura brasileira, o álbum distingue-se com colaborações de luxo desde Marisa Monte até Beck. Um projeto encarado pelo Seu Jorge como uma ferramenta geopolítica de expansão da música brasileira além-fronteiras.

Um dos maiores trunfos deste álbum é a coragem de ignorar por completo as tabelas de streaming e os vídeos rápidos das redes sociais.

Na sua entrevista ao g1 recordou ainda a sua conversa com o produtor, que resume o espírito do álbum, “estamos trabalhando para a beleza, não pelo custo. Passamos a vida toda trabalhando para a nossa indústria, uma vez na vida, a gente tem que poder fazer diferente. Eu disse para o Mario: “Nossa música tem começo, meio e fim. Fade out é coisa de rádio para entrar o anunciante”.

Seu Jorge, capa do álbum "The Other Side"
Seu Jorge, capa do álbum “The Other Side”

Alinhamento de “The Other Side”

01. Crença

02. Vento De Maio (part. Maria Rita)

03. Girl You Move Me

04. Luz Na Escuridão

05. Caboclo

06. Flor De Laranjeira

07. Folia Do Amor

08. Far From The Sea (part. Zap Mama)

09. Quando Chego (part. Marisa Monte)

10. River Man (part. Beck)

11. Beleza Barbara

E o futuro?

Seu Jorge destapou os seus planos para o futuro, confessando que quer lançar pela primeira vez na carreira um álbum inteiramente dedicado ao samba.

Para quem pensou que as “Músicas para Churrasco” já é samba, o músico esclareceu que esses projetos apenas dialogavam com o género, mas não eram a essência. Partindo desse ponto uma das suas ideias era fazer uma audição rigorosa com compositores e instrumentistas tradicionais, resgatando as sonoridades icónicas desde os anos 60 até aos anos 90, pois, Seu Jorge refere que o ritmo corre-lhe no sangue e sente-se confortável na área.

Enquanto este novo projeto não chega, “The Other Side” é uma excelente e diferente aposta do artista. O meu conselho é ouvires o álbum com atenção e dedicação que ele exige, pois para Seu Jorge, figura incontornável da cultura brasileira, é o melhor trabalho que já fez!

Site Oficial: seujorge.com | Instagram: @seujorge

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