No dia 5 de junho, o panorama da música erudita acolheu um lançamento de rara ambição e audácia. A acordeonista Inês Vaz editou o seu novo disco, intitulado “Espelho”, um trabalho que coloca o acordeão no centro de um diálogo profundo e inesperado com um quarteto de cordas.
Este trabalho é o coração de uma trilogia iniciada com “Pétala” (2024) e que encontrará o seu fecho com “Véu” (a editar), projeto que já levou a intérprete a gravar nos Abbey Road Studios, em Londres, ao lado da orquestra de cordas residente. Inês Vaz assume aqui o papel de uma verdadeira arquiteta de reportórios, retirando o acordeão dos circuitos tradicionais e estabelecendo o seu lugar nas grandes salas de concertos.
Fica o teaser de “Espelho” em baixo para veres e ouvires!
O espelho como filosofia
Longe de ser uma mera compilação de faixas, “Espelho” nasce de uma inquietação profunda sobre quem somos. O disco de Inês Vaz explora a metáfora do reflexo, o ato de nos confrontarmos com a nossa própria verdade e imagem, sendo uma espécie de “refúgio no tempo” representado através do som.
A viagem deste disco começa com poesia. A voz da atriz Patrícia André surge no primeiro plano para declamar “O Espelho à entrada” de Konstandinos Kavafis. Este poema limpa o horizonte auditivo e prepara o ouvinte para o espírito da grande obra do disco.
Para erguer esta catedral sonora, Inês Vaz uniu forças com os Solistas da Camerata Atlântica, Ana Beatriz Manzanilla (violino), João Vieira de Andrade (violino), Pedro Saglimbeni Muñoz (viola) e Jeremy Lake (violoncelo). Este lançamento celebra dez anos de uma parceria artística sólida entre a solista e o quarteto, cuja técnica se reflete em cada compasso gravado.

Inês Vaz: A audácia de reinventar Dvořák
A base deste trabalho reside numa escolha muito ousada, o monumental Quinteto em Lá Maior nº2, op.81, de Antonín Dvořák. Pela primeira vez na história da música, esta obra de referência do reportório romântico erudito é interpretada trocando o piano original pelo acordeão contemporâneo.
Como violinista que já tocou e estudou obras de Dvořák, o universo deste compositor é-me muito familiar. A sua música tem características únicas, combina melodias inspiradas em canções tradicionais com uma escrita extremamente elegante, rica e emotiva. É um som muito natural, que flui sem esforço e parece que estabelece uma ligação imediata com quem ouve.
Ao transpor o papel do piano para o acordeão, cria-se um incrível espelho temporal e fica no ar a reflexão, se em Praga no século XIX o compositor checo tivesse reconhecido as amplas capacidades expressivas do acordeão moderno, teria escrito especificamente para este instrumento?
O pensamento de Inês Vaz projeta-se também no futuro e no legado instrumental. Ciente de que o arquivo de gravações eruditas para acordeão com quarteto de cordas é muito recente e reduzido, a intérprete junta ao disco duas peças contemporâneas de relevo, “Two Keys to one Poem by J. Brodsky”, um díptico musical do compositor Sergey Akhunov, e “Improvisata” de Paulo Jorge Ferreira, que recebe neste álbum a sua primeira gravação absoluta a nível mundial.

Alinhamento de “Espelho”, de Inês Vaz
- O Espelho à entrada (poema de Konstandinos Kavafis, voz de Patrícia André)
- “Quinteto em Lá Maior Nº 2, op. 81” de Antonín Dvořák – I. Allegro ma non troppo
- “Quinteto em Lá Maior Nº 2, op. 81” de Antonín Dvořák – II. Dumka. Andante con moto
- “Quinteto em Lá Maior Nº 2, op. 81” de Antonín Dvořák – III. Scherzo (Furiant). Molto vivace
- “Quinteto em Lá Maior Nº 2, op. 81” de Antonín Dvořák – IV. Finale. Allegro
- Lua (poema de Maria Teresa Horta, voz de Patrícia André)
- “Two Keys to one poem by J. Brodsky” de Sergey Akhunov – The Moon
- “Two Keys to one poem by J. Brodsky” de Sergey Akhunov – The River
- Improvisata – Paulo Jorge Ferreira
- A verdade (poema de António Ramos Rosa, voz de Patrícia André)
O equilíbrio entre som e palavra
Ao longo de todo o percurso sonoro do disco, surgem mais dois momentos de declaração poética para intercalar as obras, trata-se dos poemas “Lua”, de Maria Teresa Horta e “A Verdade” de António Ramos Rosa, ambos interpretados para restabelecer o foco e recentrar a narrativa das obras.
Com este lançamento, Inês Vaz afirma-se definitivamente como uma intérprete comprometida com a dignidade do acordeão. Para nós, ouvintes e músicos habituados ao rigor da corda e das teclas, resta-nos contemplar este espelho sonoro e deixar-nos levar por este cruzamento temporal criado por Inês Vaz.
“Espelho” já se encontra disponível nas redes sociais e com edição física, e se quiseres adquirir o original, entra em contacto com a Inês Vaz através do seu site oficial ou redes sociais! Não percas!
Site Oficial: inesvaz.com | Instagram: @inestvaz
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