Luís Represas morreu esta quarta-feira, 22 de Julho, aos 69 anos, vítima de doença prolongada. O fundador e voz dos Trovante foi uma das figuras centrais da música popular portuguesa desde o pós-25 de Abril, e a notícia chega dois meses depois de os Trovante se terem reencontrado em palco, e enquanto Luís Represas se preparava para novos concertos a solo para assinalar os seus também 50 anos de carreira.
Se já respiravas entre o final dos anos 70 e os anos 2000, é bem provável que Luís Represas te tenha acompanhado em vários momentos. Vinha no rádio do carro, nas festas locais, tocava em casamentos e em festas de família – os Trovante e Luís Represas estavam em todo lado.
“Perdidamente” foi, para muita gente da nossa geração, a primeira vez que ouviram um poema sem saber que estavam a ouvir um poema: Florbela Espanca posta em música por João Gil, cantada por uma das vozes mais reconhecíveis do país, e que ainda hoje faz qualquer sala cantar em uníssono a partir da primeira nota.
Depois há “Timor”. A canção carrega o peso de uma luta que, durante décadas, pareceu perdida: tornou-se um dos hinos da resistência timorense e acabou associada ao próprio caminho até à independência formal do país. E claro, ainda podemos destacar bastante mais, como “Feiticeira”, mas já lá vamos.
Sagres, 1976: nascem os Trovante
Luís Paulo Fontes Represas nasceu em Lisboa a 24 de Novembro de 1956. Comprou a primeira guitarra aos treze anos e, no Verão de 1976, fundou os Trovante em Sagres, com o irmão João Nuno Represas e com João Gil, Manuel Faria e Artur Costa, todos ligados entre si pela União dos Estudantes Comunistas. Os primeiros passos do grupo beneficiaram do apadrinhamento do Partido Comunista Português, que lhe abriu portas em festivais internacionais, e do apoio de Carlos do Carmo, que, segundo o relato dos próprios fundadores, lhes emprestou 200 contos (o que equivalem +- a 100€ nos dias que correm) para comprar material. Mais tarde juntaram-se-lhes Fernando Júdice, José Martins e José Salgueiro.
Entre os temas que os Trovante deixaram, poucos pesam tanto como “Perdidamente”, que já referimos em cima. João Gil musicou o soneto “Ser Poeta”, de Florbela Espanca, incluído no álbum “Terra Firme” (1987) e cantado por Luís Represas. Seguiram-se êxitos como “125 Azul”, “Saudade”, “Memórias de Um Beijo” e “Balada das Sete Saias”, que o grupo levou aos coliseus em 1984, com o Presidente Mário Soares na plateia, e de novo em 1986, e ao Campo Pequeno em 1988, num dos primeiros concertos produzidos em nome próprio por um artista português. Em 1992, ao fim de dezasseis anos, os Trovante separaram-se.
Havana e o arranque da carreira a solo de Luís Represas
Luís Represas refugiou-se em Havana em 1993 para compor, ao lado do baixista português Nani Teixeira e dos músicos cubanos Pablo Milanés e Miguel Núñez. Nasceu daí o primeiro álbum a solo, “Represas” (EMI, 1993), gravado em português e castelhano, e o dueto com Milanés que se tornaria um dos seus temas mais conhecidos, “Feiticeira”.
Depois de uma digressão bem sucedida ao disco “Cumplicidades” (EMI, 1996), com o pianista Bernardo Sassetti, Luís Represas apresentou-se por quatro noites seguidas no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Desses concertos nasceu “Ao Vivo no CCB”, disco duplo distinguido com dupla platina. Dois anos depois, “A Hora do Lobo” (BMG) trouxe novo reencontro com Miguel Núñez, com o espanhol Pedro Guerra a participar no tema-título, e uma agenda de concertos que incluiu uma actuação na Expo 98, perante cem mil visitantes.
A 12 de Maio de 1999, a convite do Presidente Jorge Sampaio, Luís Represas voltou a juntar-se aos Trovante para um espectáculo no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, integrado nas comemorações dos vinte e cinco anos do 25 de Abril. Do concerto resultaram um disco duplo, um DVD e uma emissão televisiva.
Foi também Jorge Sampaio quem, no ano 2000, o levou a Timor-Leste numa visita oficial, na sequência do envolvimento de Luís Represas na causa timorense e da canção “Timor”, que se transformou em hino da luta pela autodeterminação do território. A distinção viria mais tarde, a 20 de Maio de 2016, quando o Presidente Taur Matan Ruak o condecorou com a Ordem de Timor-Leste.
Prémios, reencontros e duas décadas de discos
O ano 2000 trouxe “Código Verde” (Universal), com “O Lado Bom da Saudade”, apresentado na cerimónia de transferência de soberania de Macau, e “O Zorro”, em colaboração com Martinho da Vila. Em 2001 editou a colectânea “Reserva Especial” (Universal). Em 2003 lançou “Fora de Mão” (Universal), de onde saiu “Da Próxima Vez”, um dos temas mais tocados da carreira a solo. Subiu ao palco do Rock in Rio Lisboa em 2004, perante milhares de fãs, e, um ano depois, o Estado português distinguiu-o com a Ordem de Mérito, grau de Comendador.
“A História Toda”, gravação do espectáculo que assinalou os trinta anos de carreira, chegou em 2006, ano em que Luís Represas se reencontrou de novo com os Trovante, desta vez no Campo Pequeno, a convite do Montepio Geral. Um ano depois nasceu o projecto “Luís Represas e João Gil”, digressão que os dois músicos levaram a várias cidades do país; seguiu-se, em 2008, o álbum “Navegar é Preciso”, editado no Brasil. Em Maio de 2010, os Trovante voltaram a subir a um palco no Rock in Rio Lisboa, desta vez para assinalar os vinte e cinco anos do festival.
Também em 2008 chegou “Olhos nos Olhos” (Farol), gravado integralmente em Cuba, com as participações da brasileira Simone e dos cubanos Pablo Milanés e Liuba Maria Hévia. O disco reúne doze temas, onze deles originais e uma nova versão de “Colibri”. Nas suas palavras, o álbum foi “um reencontro comigo, com a maneira mais sincera de ser eu”. Pela mesma altura, emprestou a voz, na versão portuguesa, aos temas que Phil Collins interpretou para o filme de animação “Tarzan”, da Disney.
Nos anos seguintes estreou-se na literatura infantil com “A Coragem de Tição” (2010), fábula marítima incluída no Plano Nacional de Leitura, e regressou aos discos ao vivo com “Ao Vivo no Campo Pequeno” (2010). Em 2011, ano em que a Câmara Municipal de Lisboa assinalou os trinta e cinco anos dos Trovante, editou com João Gil o álbum de originais “Luís Represas e João Gil” (EMI). Seguiram-se “Cores” (Universal, 2014) e “Ao Vivo Tratamento Acústico” (Universal, 2015), registo intimista apenas com piano e contrabaixo. Em Maio de 2018 apresentou “Boa Hora”, álbum que assinalava quatro décadas de carreira e que a Sociedade Portuguesa de Autores viria a distinguir, em 2019, com o Prémio Pedro Osório.
“Miragem”
Perto de trinta anos depois da estreia a solo, Luís Represas editou “Miragem” (2024), o seu nono álbum de estúdio, com produção do músico brasileiro Ricardo Leão. O tema-título nascera dez anos antes, no Rio de Janeiro, numa sessão com Leão, e ficara esquecido até ser recuperado para este disco de nove faixas, que inclui ainda uma versão de “Meu Erro”, dos Paralamas do Sucesso, cantada a dois com Zélia Duncan. Editado a 23 de Fevereiro, foi apresentado ao vivo em Março, no Coliseu Porto Ageas e no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
Até sempre, Luís!
Este ano, em que os Trovante assinalavam cinquenta anos de existência, a banda voltou aos palcos para “Viver Tudo Numa Noite”, título tirado de um verso de “Memórias de Um Beijo”: dois concertos que se tornaram quatro pela procura de bilhetes, na MEO Arena, em Lisboa (20 e 21 de Março), e na Super Bock Arena, Pavilhão Rosa Mota, no Porto (27 e 28 de Março), com o alinhamento que se juntara ao longo dos anos 80 outra vez lado a lado em palco.
Ao longo de meio século, cruzou-se em estúdio e em palco com Fausto Bordalo Dias, José Afonso, Carlos do Carmo, Bernardo Sassetti e Jorge Palma, e, fora de Portugal, com Pablo Milanés, Ivan Lins, Martinho da Vila, Simone, Phil Collins, Compay Segundo, Gilberto Gil e Carlinhos Brown. Apresentava ainda, na televisão, o programa “Língua Mãe”. A notícia da morte gerou reacções imediatas, entre as quais a do primeiro-ministro, que recordou Represas como “uma das nossas maiores referências musicais”.
Quanto a nós, raramente publicamos este tipo de notícias/obituários – preferimos celebrar a vida, o momento presente e futuro, e regra geral preferimos deixar que “os outros” se encarreguem de dar as más notícias. Mas a nossa homenagem e vénia postuma ao Luís Represas eram mais que necessárias, pelas diversas memórias de infância ao som da sua voz, pela sua carreira, pela sua força e trabalho que elevaram a música e a língua portuguesa pelo mundo. Até sempre, Luís!
Instagram: @luisrepresas | Facebook: /luisrepresas
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