Traz os Monstros acabam de lançar “Pilates”, primeiro single do futuro álbum da banda portuense. O tema chega em formato áudio e vídeo, disponível desde já nas plataformas digitais. Xavier de Sousa, Rui Bastos, Rafael Correia e Artur Correia atacam a obsessão contemporânea com a performance física e social, transformando a cultura do ginásio em pretexto para dissecar masculinidades tóxicas e alienação urbana. Podes ver o vídeo de “Pilates” de Traz os Monstros em baixo.
Quando o músculo esconde a ferida
“Pilates” entra de mansinho com o som da uma cassete a entrar no deck, o baixo a marcar o ritmo e a voz quase sussurada, que com o sinal da bateria rapidamente se torna numa parede sonora com guitarras distorcidas e a voz bem frontal. É música direta, naquela fronteira promíscua entre o rock, punk e noise, sem rodeios nem subtilezas desnecessárias.
A banda constrói uma malha densa onde os instrumentos se empurram uns contra os outros, tal e qual concerto e mosh pit, criando fricção e energia bruta. A voz chega-nos ora num registo meio spoken word, ora gritada, carregada de urgência e sarcasmo.
A estrutura repete-se propositadamente: “Ya, nós fazemos pilates” funciona como mantra agressivo, gritado até à exaustão. Os “Yeaaah! Animal / Yeaaah! Colossal” explodem como descargas eléctricas. Traz os Monstros não procuram melodias açucaradas nem refrões radiofónicos. Querem barulho que morda – e nós gostamos.

João Freitas gravou o tema no Estúdio Cedofeita. Rui Garcia Costa (Ruca, Pé Em Triste) assinou a mistura e masterização. O som privilegia o impacto sonoro sobre subtileza: as guitarras rangem, a secção rítmica martela sem pausa, tudo converge para uma sensação de pressão constante. Há ecos do punk psicadélico cru que a banda sempre reivindicou, mas com músculos reforçados.
Entre a ironia e a navalha
Traz os Monstros descrevem “Pilates” como suplemento proteico concentrado, ideal para rebentar colunas na pista ou estourar séries no ginásio. Os efeitos secundários incluem poses no espelho e vontade incontrolável de explicar o que é um hip thrust. A banda brinca com os códigos da cultura fitness, mas a troça tem fio de arame: por baixo do sarcasmo está a crítica ao culto do corpo como escape, à masculinidade performativa, à violência dissimulada em rotinas de auto-melhoramento.
Informação técnica
Single: “Pilates”
Banda: Traz os Monstros
Formato: Áudio e videoclipe
Disponibilidade: Todas as plataformas digitais
Gravação: João Freitas, Estúdio Cedofeita
Mistura e masterização: Rui Garcia Costa (Ruca), Pé Em Triste
Pós-pandemia, pré-álbum
Depois dos EPs “Demos para o Papá e a Mamã” (volumes I e II), “Pilates” funciona como carta de intenções para o álbum que se avizinha. A banda mantém a sonoridade crua que mistura post-rock, psicadelismo e rock alternativo, mas revela amadurecimento na forma como constrói narrativas musicais. Há menos improvisação, mais arquitectura. A poesia continua abrasiva, a crítica permanece frontal, mas tudo parece mais consciente do peso de cada palavra.

Este equilíbrio entre humor corrosivo e observação social atravessa o trabalho da banda desde a formação em 2021. Vindos da quarentena, autodenominam-se resultado de esquizofrenia coletiva entre condimentos existenciais. As referências vão de Allen Ginsberg e Bukowski até José Mário Branco, passando por B Fachada, Nerve ou Quim Barreiros. Portanto, um cruzamento improvável de várias estradas que se tornou marca registada.
A formação actual, Xavier de Sousa, Rui Bastos, Rafael Correia e Artur Correia, trabalha territórios onde a periferia urbana encontra a angústia existencial e onde paracetamol quase diário convive com raiva reconfortante. “Pilates” não procura conforto nem oferece soluções. Expõe a ferida e deixa-a sangrar.
Arte enquanto fricção
Traz os Monstros não fazem música para passar na rádio nem para embalar fins de tarde. Fazem barulho bom que incómoda, poesia que arranha, canções que funcionam melhor como murro no estômago do que como banda sonora.
“Pilates” confirma esta trajectória: preferem a verdade desconfortável ao consenso fácil, a cicatriz exposta à ferida disfarçada. O single antecipa um álbum que promete continuar a transformar inquietação em som e desconforto em honestidade e brutalidade artística. O tema já se encontra disponível em todas as plataformas digitais do costume, não percas!
Instagram: @traz_os_monstros
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