Mono Clones: roleta emocional em “Faites vos jeux”

Os Mono Clones regressam com “Faites vos jeux”, single que antecipa o álbum de estreia previsto para 2026. O quarteto português explora o desconforto das apostas emocionais através de uma narrativa onde a mesa de jogo serve de palco para tensões internas, sempre dentro do território sonoro que a banda tem vindo a definir: guitarras sujas, pulso acelerado e atmosferas nocturnas carregadas de ironia. Fica o tema “Faites vos jeux” em baixo.

A casa ganha sempre

“Faites vos jeux” captura o desespero clássico de quem se vê atirado para a mesa de roleta da sedução sem ter pedido para jogar. O protagonista surge como espectador relutante, forçado a apostar todos os chips numa situação que antecipa como perdida. A descrição do casino – croupier, roda, apostas – serve apenas para sublinhar que o verdadeiro risco não está nas fichas, mas na pessoa do outro lado da sala. Entre tentativas de manter a compostura (“I’d like to chill / But I’m not able”) e a execução de “best moves” desesperados, o tema desenvolve-se como homenagem a todos aqueles que insistem em jogos onde a derrota parece óbvia.

A citação final, “Don’t lust for a bone unless you have the teeth“, funciona como pérola de sabedoria prática que tanto a canção como o próprio destino se recusam a aceitar. É precisamente essa teimosia que define o tema: uma tragédia de três minutos sobre continuar a desejar o osso quando já não há dentes para o morder, mantendo a aposta mesmo quando as probabilidades nunca estiveram do lado de quem joga.

Mono Clones, capa do single "Faites vos jeux"
Mono Clones, capa do single “Faites vos jeux”

Mono Clones: Late night rock sem floreados

Musicalmente, os Mono Clones mantêm a fórmula que os tem definido. Guitarras envoltas em reverb criam uma camada de tensão que serve de base ao crooning inquieto de Bruno Le Roc. A bateria de Pedro “Zap” Pimenta marca ritmos de forma elegante e sem exageros, enquanto Ruben Rodrigues no baixo e David Moura nas guitarras e teclados completam uma textura densa mas nunca saturada.

As influências continuam à vista: Arctic Monkeys nos arranjos mais directos, The Strokes na energia crua, The Doors nas atmosferas mais obscuras e The Last Shadow Puppets no dramatismo controlado. Mas os Mono Clones não se limitam a reproduzir referências. Há identidade própria nesta forma de habitar o rock nocturno, onde cada tema funciona como retrato das horas em que a cidade abranda mas o pensamento acelera.

Cronistas da margem

Formados por músicos com percursos em projectos anteriores e noites passadas nos circuitos underground do Porto, os Mono Clones assumem-se como banda de passeios tardios, decisões questionáveis e conversas com segundos sentidos. A biografia que apresentam não esconde o humor nem a autoconsciência: sabem exactamente o território que ocupam e não fingem ser outra coisa.

“Faites vos jeux” consolida o caminho para o álbum de estreia e reforça a ideia de que os Mono Clones trabalham num registo específico, aquele onde o existencialismo encontra o romance falhado numa esquina mal iluminada, sempre com uma guitarra suja e um shot a mais no balcão. Sem grande margem para vitórias, mas com estilo suficiente para continuar no jogo.

“Faites vos jeux” já se encontra disponível em todas as plataformas digitais, não percas!

Instagram: @monoclonesofficial | Facebook: /monoclones

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Pedro Ribeiro
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Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro é o fundador do musica.com.pt. Como músico e produtor conta com mais de 25 anos de experiência no mundo da música, tendo participado em projetos como Peeeedro, Moullinex, MAU, entre outros, e tocando em venues como Lux, Maus Hábitos, Plano B, Culturgest, Glasgow School of Arts, entre muitas outras salas e locais em Portugal e no estrangeiro. Compôs música para teatro (Jorge Fraga, Graeme Pulleyn, Teatro Viriato), dança contemporânea (Romulus Neagu, Peter Michael Dietz, Patrick Murys, Teatro Viriato), TV (RTP2) e várias rádios.