SAL lançam álbum “A Viagem Vai A Meio”

Os SAL acabam de editar o seu segundo álbum de estúdio. “A Viagem Vai A Meio” chegou às plataformas digitais esta semana, três anos depois de “Passo Forte” e acompanhado por “Lei do Compasso”, uma canção que satiriza a industrialização da composição musical e as receitas pré-fabricadas que dominam o topo das tabelas de streaming. A banda portuguesa composta por João Pinheiro (bateria), Sérgio Pires (voz e braguesa), João Gil (baixo), Daniel Mestre (guitarra) e Vicente Santos (teclados) aposta num registo que mistura rock, folk e música de raiz portuguesa, mantendo a coerência sonora que já tinham demonstrado no álbum anterior e na passagem pelo Festival da Canção 2023. Fica o vídeo de “Lei do Compasso” em baixo.

“Lei do Compasso”: sátira às fórmulas da indústria musical

“Lei do Compasso” funciona como manifesto irónico contra a mecanização da criatividade. A letra descreve um “mestre bardo” que transforma palavras em números, altera “a lei do compasso” e produz o “hit ganhador” através de fórmulas matematizadas. “Emparelhadas cruzadas / As rimas não têm segredo / O refrão não mete medo / Quando é feito com rigor“, canta Sérgio Pires, antes de pedir socorro por ousar “cantar sem permissão / Uma palavra tão grave / Desta forma tão aguda“.

A canção nasce de uma observação concreta: grande parte dos êxitos que ocupam o topo das plataformas de streaming resulta de equipas alargadas de produção, onde quatro ou mais autores se reúnem para desenhar a próxima fórmula comercial perfeita. Em paralelo, ferramentas de inteligência artificial conseguem gerar canções instantaneamente, obedecendo a padrões previsíveis de estrutura, harmonia e métrica. Os SAL questionam se a tecnologia está a copiar a criatividade humana ou se, pelo contrário, os humanos já estavam a trabalhar como máquinas antes das máquinas chegarem.

SAL, capa do single "Lei do Compasso"
SAL, capa do single “Lei do Compasso”

Musicalmente, “Lei do Compasso” joga com as mesmas regras que critica. A estrutura é clara, o refrão memorável, a instrumentação eficaz. Mas a ironia reside precisamente nesta escolha: os SAL provam que conhecem as regras e sabem usá-las sem se renderem a elas como dogma absoluto. A gravação decorreu nos Estúdios Namouche (com Moritz Kerschbaumer), nos Estúdios 65 (com João Pinheiro) e no Estúdio RSI (com Daniel Mestre). A mistura e masterização ficaram a cargo de João Bessa.

“A Viagem Vai a Meio”: cinco músicos, uma direção comum

O processo criativo de “A Viagem Vai A Meio” nasceu da partilha de influências distintas entre os cinco elementos dos SAL. João Pinheiro traz décadas de experiência nas estradas portuguesas, tendo tocado com TV Rural, OIOAI e Diabo na Cruz. Sérgio Pires transitou entre o hip hop dos anos 90, a música jamaicana e o rock independente antes de se juntar aos SAL. Vicente Santos, formado em piano clássico no Ribatejo, explora agora teclados e sintetizadores. Daniel Mestre, construtor de cordofones e técnico de som, conecta a herança tradicional portuguesa ao universo do rock. João Gil completa a formação ao baixo.

“Fazer este disco foi uma viagem”, explicou João Gil. “É uma viagem pelo mais íntimo e mais pessoal que existe em cada um de nós e que esperamos que chegue às pessoas através da nossa música.” O título do álbum, segundo Daniel Mestre, funciona como “uma promessa de continuidade e esperança, com muitos passos por dar”. O guitarrista acrescenta que o disco serve de “ponto de situação do percurso da banda e também a nível pessoal”.

Antes do lançamento completo, os SAL disponibilizaram quatro singles: “Regra Dos Dois Simples”, “Pedaço de Sal”, “Mentira Viral” e “Um Milhão É Só Um Milhão”. A sequência destes temas antecipou a variedade estilística que atravessa “A Viagem Vai A Meio”, onde coexistem referências ao rock mais direto, ao folk português e a experimentações tímbricas que fogem às categorias mais óbvias.

Alinhamento “A Viagem Vai A Meio”, SAL:

  1. Viver
  2. Regra dos Dois Simples
  3. A Meta
  4. Para Sempre
  5. Lei do Compasso
  6. Uns Dias
  7. De Onde Vem
  8. A Viagem Vai a Meio
  9. Transbordo
  10. Um Milhão É Só Um Milhão
  11. Mentira Viral
  12. Pedaço de Sal
  13. Homem Lirio

Autenticidade como método de trabalho

Desde a formação em 2020, os SAL têm-se posicionado contra a perfeccionização artificial dos concertos ao vivo. A banda recusa o uso de backing tracks, pistas pré-gravadas ou correções automáticas de afinação. Cada concerto resulta daquilo que cinco pessoas conseguem produzir em tempo real, com as imperfeições e os acidentes felizes que daí decorrem. Esta opção não é nostálgica nem purista: é estratégica. Num mercado saturado de produções digitais polidas até à exaustão, os SAL oferecem algo cada vez mais raro: presença física, diálogo instrumental espontâneo e risco artístico assumido.

A passagem pelo Festival da Canção 2023, onde apresentaram “Viver”, consolidou a visibilidade nacional da banda. A canção não venceu a competição, mas cumpriu o objectivo de apresentar os SAL a um público mais vasto. “Passo Forte”, editado em 2021, tinha já estabelecido o território sonoro da formação: guitarras distorcidas convivendo com a viola braguesa de Sérgio Pires, ritmos que tanto podem vir do rock garage como da música popular portuguesa, teclados que adensam momentos chave.

SAL
SAL

Músicos que já percorreram estradas antes de se juntarem

A coesão dos SAL resulta de trajectórias individuais longas. João Pinheiro aprendeu bateria sozinho aos 13 anos, tocou nos TV Rural durante 16 anos e fez parte dos Diabo na Cruz, banda que percorreu o país a explorar música tradicional portuguesa sem abandonar a estrutura do rock. Sérgio Pires começou no hip hop dos anos 80, passou pelos Sloppy Joe e Expensive Soul antes de integrar os Diabo na Cruz, onde permaneceu sete anos. Vicente Santos fez conservatório de piano clássico mas desviou-se para os sintetizadores e órgãos. Daniel Mestre, além de guitarrista, construiu e restaurou cordofones tradicionais, tendo trabalhado como técnico de som para várias bandas antes de integrar os SAL.

Esta diversidade de percursos explica a amplitude estilística de “A Viagem Vai A Meio”. Não se trata de ecletismo gratuito, mas de cinco músicos com vocabulários próprios que encontraram forma de dialogar através da música. O título do álbum, segundo Daniel Mestre, reflecte exactamente isso: “Embora exista já um passado repleto de experiências, é inegável que ainda há muito para aprender e fazer.”

Um álbum que respira fora das tendências

“A Viagem Vai A Meio” distancia-se deliberadamente das modas do momento. Não há auto-tune, não há batidas electrónicas programadas para encaixar em playlists algorítmicas, não há concessões ao que está a funcionar comercialmente. Os SAL apostam numa abordagem que privilégia a organicidade da execução instrumental e a clareza da mensagem lírica. As canções falam de amor, de luta, de desencanto, de esperança, mas sem recorrer a metáforas vagas ou a retórica vazia.

A produção, assinada pela própria banda em colaboração com João Bessa, é próxima do que acontece num concerto ao vivo: guitarra, baixo, bateria, teclados e voz, sem artifícios desnecessários. Esta escolha reforça o conceito central dos SAL: música feita por pessoas para pessoas, onde a técnica serve a emoção e não o contrário.

“A Viagem Vai A Meio” e “Lei do Compasso” já estão disponíveis em todas as plataformas digitais. A banda anuncia datas de apresentação ao vivo para os próximos meses, onde o álbum será tocado na sua totalidade. Quem conhece os SAL sabe que é no palco que as canções ganham a dimensão completa, se puderes não percas!

Instagram: @salnasredes | Facebook: /salnasredes

Queres ver mais notícias sobre música portuguesa? Carrega aqui! Se estás interessado em concertos ou festivais, dá uma vista de olhos no Calendário de Concertos e Festivais.

Pedro Ribeiro
Escrito por

Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro é o fundador do musica.com.pt. Como músico e produtor conta com mais de 25 anos de experiência no mundo da música, tendo participado em projetos como Peeeedro, Moullinex, MAU, entre outros, e tocando em venues como Lux, Maus Hábitos, Plano B, Culturgest, Glasgow School of Arts, entre muitas outras salas e locais em Portugal e no estrangeiro. Compôs música para teatro (Jorge Fraga, Graeme Pulleyn, Teatro Viriato), dança contemporânea (Romulus Neagu, Peter Michael Dietz, Patrick Murys, Teatro Viriato), TV (RTP2) e várias rádios.