É Já Amanhã! Caleidoscópio Colectivo apresentam “Vórtice (Para o fim de um Tempo)”

Os Caleidoscópio Colectivo são um ensemble de música clássica contemporânea baseado no Porto que está a redefinir os limites da criação musical em Portugal. Formado por compositores, instrumentistas e técnicos de som, o coletivo prepara-se para lançar “Vórtice (Para o fim de um Tempo)”, editado pela Artway a 16 de outubro, com apresentação marcada para as 19h30 na Casa da Música.

O disco nasce de perguntas incómodas. E se a música perdesse o ritmo? E se os músicos esquecessem como tocar os seus instrumentos? E se o próprio Tempo, esse conceito que marca compassos e organiza a vida, simplesmente deixasse de existir?

Durante a pandemia, quando Lisboa e Porto pareciam cidades-fantasma e o mundo inteiro estava suspenso num presente interminável, o Caleidoscópio Coletivo decidiu enfrentar estas questões de frente. A resposta demorou meses a materializar-se, mas chegou em forma de um objeto sonoro perturbante e sedutor que desafia todas as convenções da música de câmara tradicional.

Não é um disco fácil de classificar. Não é bem música de câmara clássica, embora use violino, violoncelo, clarinete e piano. Não é música experimental pura, apesar de colocar microfones debaixo de água e gravar em sítios subterrâneos. É qualquer coisa que nasce quando dez pessoas decidem largar as convenções e criar algo genuinamente novo. Três compositores, quatro instrumentistas, três técnicos de som, todos a empurrar uns contra os outros até as fronteiras se dissolverem. Se ficaste com a pulga atrás da orelha, podes ver o teaser em baixo.

As conversas que mudaram tudo

Catarina Sá Ribeiro, compositora formada na ESMAE com mestrado em Composição e licenciatura em Piano Jazz, lembra-se das discussões iniciais de Caleidoscópio Colectivo como um território nebuloso, onde falar sobre o fim do Tempo os levou aos elementos primordiais, àquilo que resta quando tudo o resto desaparece.

Não me recordo ao certo de que forma a discussão nos levou até aos quatro elementos – ar, fogo, terra, água.” refere Catarina Sá Ribeiro, “Refletir sobre isso expõe, com simplicidade, a essência da nossa substância humana“, diz. “Há uma tentativa de manter a humanidade – ou uma humanidade.

O compositor Daniel Moreira, professor na ESMAE e investigador no CEIS20 da Universidade de Coimbra, trouxe para a mesa dos Caleidoscópio Colectivo uma questão técnica que acabou por ser filosófica. Ele estudou com George Benjamin no King’s College London e trabalha muito com ópera e música para cinema, ou seja, conhece bem a diferença entre partitura e gravação.

Um dos aspetos mais interessantes de gravar um disco é que tendem a diluir-se as fronteiras entre compositor e intérprete“, explica Daniel Moreira. “A gravação tem em comum com a performance ao vivo o facto de se manifestar sob a forma de som, mas aproxima-se da partitura por ser também um objeto duradouro.” E remata: “Nesse sentido, os instrumentistas e os técnicos de som são também compositores deste disco.

Esta não é conversa de circunstância. É a base de tudo. Miguel Resende Bastos, o terceiro compositor dos Caleidoscópio Colectivo que estudou em Roterdão, estreou óperas na Holanda e trabalha com a Digitópia da Casa da Música, confirma.

A colaboração entre compositores é algo bastante recente na história da composição, pelo menos na forma como nós a abordamos.“. Miguel Resende Bastos acrescenta uma confissão: “Eu, pelo menos, não sabia que tinha em mim alguns lados dos que fui descobrindo em todo este processo.

O roubo criativo como método

Dalila Teixeira toca piano, investiga a sinestesia de Messiaen (capacidade de associar cores a sons) e colabora em projetos que vão da música tradicional à direção musical. Quando descreve o processo de criação dos Caleidoscópio Colectivo, usa uma palavra forte: roubo.

Os compositores trocaram – ou ‘roubaram’ – material musical uns aos outros.” Não foi por acaso. Dalila Teixeira acrescenta ainda que “O processo foi realmente colaborativo. Os inputs criativos partiram de discussões de equipa e muitas ideias musicais foram sendo sugeridas pelo encenador; o desenho de luz foi-se delineando a partir de escutas conjuntas da música.

Isto é raro. Na música clássica, o compositor escreve, o intérprete toca, o técnico grava. Cada um no seu quadrado. Aqui não. Daniel Santos, produtor musical e técnico de gravação que já trabalhou com Clã, Salvador Sobral e Mário Laginha, vê nesta abertura a chave de tudo o que rodeia os Caleidoscópio Colectivo.

Há uma certa liberdade que começa desde logo na forma como os próprios compositores veem a sua música. Eles percebem que a obra é algo maior do que a sua ideia isolada sobre como o som devia ser.” refere Daniel Santos, afirmando ainda que “É exatamente essa liberdade que permite que toda a gente possa entrar no processo – músicos, técnicos, compositores – e participar de forma ativa. Isso torna tudo muito mais motivador e envolvente. Além disso, é essa abertura que leva à descoberta de novas maneiras de tocar, de produzir e de criar.

Redescobrir o instrumento

Eduardo Seabra ganhou o primeiro prémio no ICA 2024 Young Artist Competition em Dublin e no XII Concurso Nacional de Jovens Clarinetistas. Tem curriculum para dar e vender. Podia ter ficado na zona de conforto, mas não ficou. Sobre os Caleidoscópio Colectivo, refere que:

Foi muito bom trabalhar neste projeto porque consegui redescobrir a conceção de como quero tocar clarinete“, admite Eduardo Seabra. “É música muito diferente, que me ajudou e de certa forma forçou a perceber que há outras maneiras de produzir som, outras técnicas e outros sons que até agora desconhecia.” acrescentando ainda um pormenor revelador: “O facto de jantarmos juntos também ajuda no processo de trabalho.

Laura Peres, violinista que estuda violino barroco em Frankfurt e já tocou como solista com a Orquestra Gulbenkian, resume:

“Fico sempre surpreendida com o facto de, através da mútua colaboração, conseguirmos entrar tão fundamente em contacto com nós mesmos.”

Teresa Soares, violoncelista e codiretora do Porto Cello Festival, aponta outro benefício prático: “O trabalho em conjunto com os compositores foi muito importante para tornar mais rápida e mais eficaz a semana de ensaios. Ajuda imenso a aprofundar a interpretação.” Quando o compositor está ali, a dúvida resolve-se em segundos. Quando está ausente, pode durar semanas.

Caleidoscópio Colectivo: Microfones debaixo de água

José Afonso Monteiro assina a gravação, edição e mistura do disco dos Caleidoscópio Colectivo, “Vórtice (Para o fim de um Tempo)”. Trabalha com o Quarteto Contratempus, com a Artway, com teatro e ópera. Conhece os truques do ofício. Mas este projeto levou-o para território desconhecido.

Passámos muito tempo a explorar o que poderia ser essa ideia do fim do Tempo, da sua ausência“, conta José Afonso Monteiro. “Com este disco, decidimos pará-lo, cristalizá-lo. Assim, podemos fazer o disco soar vezes sem conta, recuar, avançar e repetir, descobrindo sempre algo novo em cada escuta.

Ricardo Torres, que foi técnico coordenador de som na Casa da Música e gestor executivo do Remix Ensemble antes de abraçar o freelance, revela a dimensão física quase extrema do trabalho para Caleidoscópio Colectivo.

“Nós sabíamos que vínhamos fazer um trabalho diferente do habitual. E é por ser um trabalho tão estimulante que nos atrevemos a ir para debaixo de terra gravar com microfones dentro de água, sabemos que o resultado justifica os riscos.”

Microfones dentro de água. Gravações subterrâneas. Não estamos a falar de efeitos digitais aplicados no computador. Estamos a falar de gente que vai literalmente para debaixo da terra captar sons que ninguém mais captou. Porquê? Porque o conceito do disco, o fim do Tempo, o colapso dos elementos, exigia texturas sonoras impossíveis de obter de outra forma.

“Vórtice (Para o fim de um Tempo)”: Um mundo pós-apocalíptico

“Vórtice (Para o fim de um Tempo)” dos Caleidoscópio Colectivo evoca relógios a derreter como nos quadros de Dalí, cataclismos radioativos, a força devastadora da água e do fogo. Mas não é ilustração. Não é banda sonora para um filme imaginário. É a própria matéria do colapso transformada em música. Há algo de visceral nisto, de urgente. Talvez porque foi criado em plena pandemia, quando o apocalipse deixou de ser ficção científica e passou a ser notícia diária para todos nós.

Catarina Sá Ribeiro resume o espírito do projeto Caleidoscópio Colectivo numa frase simples mas poderosa: “Foi um projeto de conexão e raízes.” Conexão entre as pessoas envolvidas, raízes naquilo que nos define enquanto seres humanos. Mesmo, ou sobretudo, quando tudo à volta desmorona.

Caleidoscópio Colectivo, capa do álbum “Vórtice (para o fim de um Tempo)”, a ser lançado pela editora Artway a 16 de Outubro. Créditos Capa: Rita Laranja
Caleidoscópio Colectivo, capa do álbum “Vórtice (para o fim de um Tempo)”, a ser lançado pela editora Artway a 16 de Outubro. Créditos Capa: Rita Laranja

O disco como objeto de contemplação

Daniel Moreira faz uma distinção importante entre o concerto e disco dos Caleidoscópio Coletivo. “Enquanto a partitura é um objeto duradouro, cristalizado, a performance é efémera e irrepetível.” O disco, por sua vez, é duradouro mas feito de som, não de papel. “Quem ‘escreve’ a gravação são também os intérpretes, pois são eles que criam / ‘compõem’ os sons específicos que constituem a obra gravada.

Esta ideia de que o disco dos Caleidoscópio Colectivo é uma composição em si mesmo, não apenas o registo de uma composição, atravessa todo o “Vórtice (Para o fim de um Tempo)”. Daí as gravações em sítios impossíveis, daí os microfones submersos, daí a decisão de passar semanas a explorar texturas sonoras que nunca apareceriam numa sala de concertos. O disco dos Caleidoscópio Colectivo não substitui o espetáculo ao vivo. É outra coisa. Uma escultura sonora que se pode revisitar, dissecar, estudar. São ambos essenciais para se perceber a plenitude da obra criada pelos Caleidoscópio Colectivo.

Apresentação na Casa da Música

A apresentação dos Caleidoscópio Coletivo a 16 de outubro na Casa da Música terá audição comentada de “Vórtice (Para o fim de um Tempo)” e visualização de vídeos. Dalila Teixeira, Catarina Sá Ribeiro, Daniel Moreira, Miguel Bastos e José Afonso Monteiro estarão presentes, assim como Carlos Guedes (compositor e investigador convidado) e Vanessa Pires da editora Artway. É a oportunidade de perceber não apenas o resultado final mas o processo completo: as conversas, as dúvidas, as descobertas e as conclusões sónicas a que se propõem os Caleidoscópio Colectivo.

A capa ficou a cargo de Rita Laranja e já antecipa visualmente o universo do disco: formas em dissolução, cores que escorrem, uma estética entre o onírico e o perturbador.

“Vórtice (Para o fim de um Tempo)” dos Caleidoscópio Coletivo não é para toda a gente. Não é música de fundo. Exige atenção, disponibilidade, vontade de entrar num território desconhecido e quem sabe, desconfortável. Mas para quem aceita o desafio, oferece algo raro: a experiência de testemunhar dez pessoas a inventar uma linguagem do zero, sem rede de segurança, sem fórmulas prontas. Tudo isto caracteriza os Caleidoscópio Colectivo.

Num país onde a música clássica contemporânea ainda luta por público e visibilidade, “Vórtice (Para o fim de um Tempo)” dos Caleidoscópio Colectivo prova que há vida inteligente fora dos circuitos convencionais. Prova que é possível criar música ambiciosa, conceptualmente forte e tecnicamente ousada sem perder a humanidade. Prova, sobretudo, que o Tempo, esse protagonista invisível do disco, ainda não acabou. Está apenas a transformar-se. E o Caleidoscópio Colectivo captou essa transformação em estado puro. A não perder!

Nota: Por engano, referimos que haveria um concerto. Esta informação está incorreta e o artigo já se encontra corrigido. Pedimos desculpa pela confusão!

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Pedro Ribeiro
Escrito por

Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro é o fundador do musica.com.pt. Como músico e produtor conta com mais de 25 anos de experiência no mundo da música, tendo participado em projetos como Peeeedro, Moullinex, MAU, entre outros, e tocando em venues como Lux, Maus Hábitos, Plano B, Culturgest, Glasgow School of Arts, entre muitas outras salas e locais em Portugal e no estrangeiro. Compôs música para teatro (Jorge Fraga, Graeme Pulleyn, Teatro Viriato), dança contemporânea (Romulus Neagu, Peter Michael Dietz, Patrick Murys, Teatro Viriato), TV (RTP2) e várias rádios.

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