MaZela regressa com “Bordado”, o primeiro single depois do EP de estreia “Desgostos em Canções de Colo”. A canção, disponível nas plataformas digitais desde 19 de fevereiro e editada pela Skud & Smarty, marca o arranque de um novo ciclo para o projecto da albicastrense Maria Roque.
Escrita ao piano em 2022 após a perda de alguém próximo, “Bordado” passou pelo luto antes de ver a luz do dia e chega agora numa versão adaptada a duas guitarras eléctricas, com Alexandre Mendes na segunda guitarra, e acompanhada por um videoclipe realizado por Henrique Lourenço. Podes ver o vídeo em baixo.
“Bordado”: luto cosido entre reverbs e memórias
Não há batidas em “Bordado”. Não há bateria, não há percussão, não há nada que marque o tempo de forma convencional. O que existe são duas guitarras eléctricas, pads, texturas, e uma voz que se enraiza, meio que flutuando em reverb, a embalar-nos.
Maria Roque canta “com fé e mágoa” ao mesmo tempo, e é exactamente isso que se ouve: uma voz que não escolhe entre acreditar e sofrer, brinca com as próprias palavras e contradições, e faz as duas coisas na mesma frase. O resultado é uma canção etérea que parece vir de um sítio que não conseguimos localizar no mapa, algures entre uma memória pessoal e uma memória colectiva que nos pertence e não sabemos porquê.
A guitarra de Alexandre Mendes passeia-se por uma escala com sabor a tajine e cuscuz, solando sobre camadas de som que ele próprio construiu, misturou e masterizou. É um trabalho de produção bastante bem feito onde menos é mais: despojado e cru no número de elementos, mas denso na forma como esses poucos elementos ocupam e constroem a paisagem sonora. Cada reverb, cada textura existe porque precisa de existir e é tudo o que precisamos para nos deixarmos levar nesta viagem bastante pessoal.

A canção cresce com paciência. Primeiro é a voz de Maria Roque a desenhar a narrativa, sozinha, frágil, intencional. Canta sobre partir, sobre pedir tempo e permissão para se despedir, sobre abraçar quem lhe pertence antes de ir. Há ali um “vou e já não volto” que soa a irreversível, como quem finalmente aceita largar e deixar voar. E quando canta “boa viagem a quem fica, eu regresso ao começo”, o luto deixa de ser o destino e passa a ser o ponto de partida.
“Bordado” é sobre o que se faz com o que resta, sobre pegar na agulha e continuar a coser, mesmo com as mãos a tremer. Depois a guitarra toma as rédeas e leva-nos pelo resto da viagem. Este crescendo e transição acontecem de forma natural, como quem respira fundo antes de dizer algo que custou anos a racionalizar e pôr em palavras.
A história por trás de “Bordado”
“Bordado” não nasceu para ser ouvida por ninguém. Nasceu ao piano, em 2022, durante uma despedida.
Nas palavras de Maria Roque, “A Bordado foi composta ao piano em 2022, entre lágrimas e memórias, durante a partida de uma pessoa que me era muito querida. De tão frágil e privada, demorou o tempo do luto para sair e ver o dia.“
E foi isso que aconteceu. A canção ficou guardada até Maria Roque se sentir preparada para a abrir ao mundo. Quando esse momento chegou, trabalhou com Alexandre Mendes para adaptar o tema às duas guitarras, trocando o piano pela versão que agora chega aos nossos ouvidos.
“Decidimos lançar esta última versão, vivida e viajada, sem abandonar a vontade de a partilhar na sua versão original, mais tarde“, explica a artista.
Isto abre uma porta curiosa: a mesma canção em dois corpos diferentes, cada um com o seu próprio peso. A versão de piano, crua, íntima, ainda por revelar – se é que alguma vez vai ser revelada. E este remake de “Bordado”, moldado por palcos e quilómetros, que ganhou outro fôlego sem perder a fragilidade da composição original.
Créditos de “Bordado” de MaZela
Voz, guitarra, letra e composição: Maria Roque
Guitarra eléctrica, baixo, sintetizadores, produção, mistura e masterização: Alexandre Mendes
Videoclipe: Henrique Lourenço

De Castelo Branco para os palcos: o percurso de MaZela
O nome MaZela nasce em 2020 de um jogo de palavras: celebrar mazelas e zelar por elas ao mesmo tempo. Maria Roque, natural de Castelo Branco, assume a voz, guitarra, letra e composição. Alexandre Mendes participa com guitarra eléctrica, baixo, sintetizadores e toda a componente de produção, mistura e masterização.
O EP de estreia, “Desgostos em Canções de Colo”, saiu em novembro de 2024 e abriu portas. MaZela passou pelo NOS Alive e pelo Vodafone Paredes de Coura, além de teatros e salas espalhadas por Portugal. Para um projecto com menos de dois anos de edições, é um percurso exemplar e que fala por si.
Quem presta atenção à música portuguesa recente talvez reconheça a voz de Maria Roque noutro contexto: é ela quem canta “Canção a Zé Mário Branco” no premiado disco “2 de Abril” de A Garota Não.
MaZela abre novo ciclo: o que vem a seguir
Um bordado demora. Ponto a ponto, linha a linha, sem atalhos, com a paciência e amor que são necessários. Maria Roque escreveu esta canção em 2022 e guardou-a como se guarda uma coisa bastante preciosa, até ao dia em que a dor muda de forma e já se consegue pegar nessa “coisa” sem a partir. E é isso que se ouve em “Bordado”: não a ferida, mas a memória e ternura que ficou para sempre guardada.
O single “Bordado” inaugura um novo ciclo de lançamentos que parecem sugerir um novo disco de MaZela, com canções que já foram estreadas ao vivo para quem esteve presente na Casa Capitão no dia 21 de Fevereiro. Depois do EP de estreia de MaZela, este segundo capítulo chega com bastante expectativa, mas também com a liberdade de quem quer continuar a voar. “Bordado” de MaZela já está disponível nas plataformas digitais, não percas!
Instagram: @ma__zela
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