Teatro Viriato: Abertura da Temporada Fevereiro – Julho 2026

O Teatro Viriato apresentou hoje a sua nova temporada, que decorre entre Fevereiro e Julho de 2026 em Viseu. A programação arranca no início de Fevereiro e ao longo de seis meses, o palco do Teatro Viriato acolhe 40 actividades que questionam o tempo em que vivemos, da identidade à migração, da masculinidade ao cuidado, da memória ao futuro.

Num mundo acelerado e dominado pelo digital, o Teatro Viriato posiciona-se para esta temporada como um espaço de resistência, onde a presença analógica, física e a experiência partilhada ainda têm lugar.

António M Cabrita, Director de Programação, acompanhado nesta apresentação por Guilherme Gomes, assessor para a Cultura do presidente da Câmara Municipal de Viseu, assume que esta temporada vai além da mera organização de um calendário. A programação resulta de uma visão e escuta atenta ao território, aos artistas e aos diferentes públicos que habitam a região. 

António M Cabrita e Guilherme Gomes. Apresentação da temporada Fevereiro-Julho 2026 do Teatro Viriato em Viseu.
António M Cabrita e Guilherme Gomes. Apresentação da temporada Fevereiro-Julho 2026 do Teatro Viriato em Viseu.

Teatro Viriato Temporada 2026: os eixos que sustentam a programação

A temporada 2026 do Teatro Viriato assenta em nove eixos que orientam as escolhas artísticas. Há uma vontade clara de aproximar artistas e públicos, derrubando a barreira invisível que tantas vezes separa quem está em palco de quem está na plateia. O debate na comunidade sobre questões contemporâneas entra pela porta principal, sem rodeios, com espectáculos que tocam em equidade, acessibilidade, sexualidade e justiça.

A relação com o território ganha peso reforçado. Viseu e a região não são apenas a morada do teatro Viriato, mas interlocutores ativos na construção do programa. A criação artística nacional encontra aqui um porto seguro, com apoio concreto a quem produz em Portugal. Companhias consagradas partilham cartaz com vozes mais jovens, numa convivência que recusa hierarquias geracionais rígidas.

A mediação de públicos surge como ferramenta para alargar o alcance do que acontece em palco. E a programação não se confina às paredes do edifício, espraiando-se pelo território numa lógica de descentralização que faz sentido numa cidade do interior. Por fim, o reforço do tecido artístico regional funciona como compromisso de fundo.

Os números da temporada

Entre Fevereiro e Julho, o Teatro Viriato acolhe 4 estreias e desenvolve 4 projectos próprios. Uma nova iniciativa junta-se ao programa, ao lado de 7 coproduções que resultam de parcerias com outras estruturas. O apoio à criação materializa-se em 5 residências artísticas, e o trabalho em rede traduz-se em 8 parcerias com diferentes agentes culturais.

A acessibilidade não fica esquecida: 4 sessões acessíveis integram a programação, garantindo que o teatro chega a quem tantas vezes fica de fora. No total, são 40 actividades distribuídas por seis meses.

Vanessa Chrystie assina imagem da temporada

A imagem que acompanha esta temporada do Teatro Viriato é da autoria de Vanessa Chrystie e coloca o coração no centro. A artista explica que este órgão tem reaparecido ao longo dos anos nos seus desenhos, sempre associado ao amor, à paixão e à coragem. Foi escolhido também por ser o berço metafórico da alma.

O texto que acompanha a imagem não esconde a dureza do momento em que vivemos atualmente. Vanessa Chrystie fala de uma época frágil, de um ser humano que não pensa com o coração, de guerras e de colapso ambiental. Mas recusa o fatalismo. O teatro, defende, é um espaço onde se abre a mente e o coração a realidades paralelas. E é tempo de agir, de deixar que esse pensamento transborde para as nossas vidas.

Aproximar artistas e públicos: Cinema de Inspiração estreia em Maio

A Temporada Fevereiro – Julho 2026 do Teatro Viriato traz uma iniciativa inédita. O projecto “Cinema de Inspiração” arranca a 19 de Maio e convida artistas a partilharem os filmes que marcaram o seu processo criativo. A ideia é simples: antes de cada espectáculo, o público assiste à obra cinematográfica que serviu de ponto de partida para a criação em palco. No final, abre-se espaço para conversa entre artistas e espectadores.

A primeira sessão antecede “Suplicantes”, de Sara Barros Leitão. O filme escolhido pela criadora será exibido antes da peça, que aborda a tragédia actual das migrações forçadas. Esta ponte entre cinema e teatro permite ao público entrar no universo referencial de quem cria, encurtando a distância entre palco e plateia.

Debate e contemporaneidade: da saúde mental masculina à justiça

O Teatro Viriato não foge aos temas que incomodam. No início desta temporada o Teatro Viriato traz-nos Luca Argel logo a 6 de Fevereiro para apresentar “O Homem Triste”, álbum onde o músico e poeta luso-brasileiro mergulha na saúde mental masculina, nas emoções reprimidas e nas convenções sociais que pesam sobre os homens. É um trabalho íntimo e arriscado, apresentado em primeira mão em Viseu.

Uma semana depois, a 13 de Fevereiro, Sara de Castro sobe ao palco com “Justiça Cega”. A peça parte de uma perspectiva feminina e feminista para questionar o sistema judicial, particularmente quando aplicado a mulheres. Não há respostas fáceis, apenas a vontade de discutir formas diferentes de olhar para a justiça.

A 23 de Maio, “Suplicantes” de Sara Barros Leitão (também integrado na iniciativa “Cinema de Inspiração”) coloca o projecto europeu em cima da mesa. Fronteiras, migrantes, pactos de hospitalidade, acolhimento e integração são os fios que tecem esta reflexão sobre o que significa pertencer e ser aceite.

Reforçar laços com o território

As parcerias com instituições culturais da região ganham peso nesta temporada. O Cine Clube de Viseu mantém-se como aliado de primeira linha, partilhando valores e objectivos de programação com o Teatro Viriato.

Dessa parceria nasce a Oficina de Cinema de Animação, que decorre em Junho e Julho. Num tempo dominado pelo digital e pela emergência da inteligência artificial, a aposta recai no analógico, no manual, na partilha de processos e na presença colectiva. A colaboração estende-se ainda à exibição de “Flow – à deriva” a 13 de Junho, sessão que encerra mais uma edição do “Pequeno Cinema”, projecto do Teatro Viriato dedicado aos mais novos.

O Festival Internacional de Música da Primavera, promovido pelo Conservatório Regional de Música de Viseu, também marca presença. A 23 de Abril, o concerto “Archipélago” junta o compositor Luís Tinoco ao Drumming Grupo de Percussão, reforçando a música de criação contemporânea no festival.

O jazz entra pela mão da Gira Sol Azul. O festival Que Jazz é Este? regressa ao palco viseense, desta vez não com concerto internacional como em anos anteriores, mas com o Concerto Final do 18.º Workshop de Jazz de Viseu. Participam alunos dos Conservatórios de Música de Coimbra, Porto, Santa Comba Dão e Seia, entre outros.

O circo também tem lugar reservado. O Trengo Festival de Circo do Porto volta ao Teatro Viriato com “Dante”, espectáculo da companhia Nacho Flores, agendado para 26 de Junho.

Apoiar a criação artística nacional: estreias e coproduções

O Teatro Viriato abre as portas e palco para que artistas estreiem os seus trabalhos em Viseu. É o caso de “Aurora (ou Livro)”, de Paula Diogo, que sobe ao palco a 19 e 20 de Março. Neste espectáculo, a artista convida um grupo de colaboradores a criar um habitat para o corpo, pensando-o como matéria táctil e reactiva. Quando privado da visão, o corpo activa outras formas de ler o mundo e de se relacionar com a realidade.

As coproduções ocupam lugar central na acção programática da Temporada 2026 do Teatro Viriato. A 30 de Abril, Catarina Miranda apresenta “FARSA”. Já a 15 e 16 de Maio, “Mudar” junta Marco Paiva, Ana Ventura e Filipe Raposo num trabalho conjunto. Outras coproduções surgem distribuídas pelos restantes eixos de programação.

O apoio a artistas emergentes concretiza-se também através de bolsas de criação. “TOSHiiB4”, de Luísa Guerra, chega a Viseu como projecto vencedor da 8.ª edição da Bolsa Amélia Rey Colaço, uma iniciativa conjunta do Teatro Nacional D. Maria II, A Oficina/Centro Cultural Vila Flor, O Espaço do Tempo e Teatro Viriato.

Companhias e artistas consagrados em Viseu

O Teatro Viriato recebe também nomes estabelecidos do panorama artístico nacional. A 27 de Fevereiro, o realizador Sandro Aguilar apresenta “Primeira Pessoa do Plural”, filme que conta com Albano Jerónimo e Isabel Abreu no elenco. Os dois actores estarão presentes em Viseu para interpretar ao vivo um conjunto de cenas que ficaram de fora da montagem final.

A Formiga Atómica, companhia que o público viseense conhece bem, regressa a 13 de Março com “Só Mais uma Gaivota”. Miguel Fragata viaja no tempo para reencontrar antigos colegas do curso de teatro e procurar o destino de cada um.

A dança entra pelo braço da Companhia Nacional de Bailado. A 29 de Maio, a CNB traz a Viseu “Only Duos”, um programa exclusivo para o circuito nacional que reúne duetos de vários coreógrafos. Do clássico ao contemporâneo, o espectáculo explora a força e a intimidade do encontro entre dois bailarinos em palco.

Dar voz aos mais jovens: K Cena e Três Tempos

O projecto K Cena, promovido e produzido pelo Teatro Viriato, chega à sua 13.ª edição. De 15 a 17 de Abril, os jovens que participaram no processo criativo apresentam “2062”, peça encenada por João Branco. Em palco, um universo onde as emoções foram banidas e todas as acções são vigiadas pela tecnologia. O K Cena trabalha competências pessoais e artísticas, abrindo caminho para que os mais novos participem activamente na criação cultural.

Na área da música, o projecto “Três Tempos” resulta de coprodução com a Culturgest (Lisboa) e o Theatro Circo (Braga). Trata-se de trabalho colaborativo de criação artística juvenil, com grupos de músicos orientados por xullaji e Bruno Pinto. A 2 de Abril, o resultado do processo é apresentado na Culturgest. A 18 de Abril, a apresentação acontece fora do contexto escolar.

De 5 a 7 de Março, o Festival AMOSTRA ocupa o Teatro Viriato. Promovido pela Companhia Caótica, o festival dedica-se ao público jovem e procura democratizar o acesso à cultura pelos mais novos. O objectivo passa por dar palco a artistas que criam especificamente para crianças e jovens, abrindo novos caminhos para chegar a este público.

O programa do Festival Amostra inclui também o lançamento do livro “Pedras de parar e da urgência” a 5 de Março, seguido da apresentação de “Aruna e a arte de bordar inícios”, de Ainhoa Vidal, a 6 e 7 de Março.

Mediação de públicos: oficinas, visitas e formação

A mediação ocupa lugar central na acção do Teatro Viriato. É através de iniciativas que cruzam programação e comunicação que o espaço se transforma em ponto de encontro, diálogo e transformação social.

De 5 a 8 de Maio, a oficina “A música dá trabalho”, da CCER Mais/Omnichord, leva jovens a descobrir o universo da música e as muitas profissões que o compõem. A particularidade desta oficina está no local: não decorre no edifício do Teatro Viriato, mas sim nas próprias escolas.

As oficinas “Tatabitato” destinam-se a bebés, crianças e respectivos familiares. Com datas marcadas para 14 de Fevereiro, 21 de Abril e 13 de Junho, estas sessões permitem um primeiro contacto com a música e com a programação do teatro. Ana Bento e Bruno Pinto desenham cada oficina a partir das sugestões culturais da temporada.

As Visitas Guiadas, orientadas por Gi da Conceição, abrem as portas dos bastidores ao público. É oportunidade para conhecer os segredos que sustentam o que acontece em palco.

Teatro Viriato Temporada 2026 sai do edifício

A programação não se confina às paredes do Teatro Viriato. De 2 a 6 de Junho, “Teatro Paraíso – Palavra Ambulante” leva o teatro à cidade. A peça do Trigo Limpo – Teatro ACERT, com texto e encenação de José Rui Martins, percorre escolas de Viseu em regime de itinerância. Para o público em geral, há sessões no Jardim de Santo António (mesmo em frente ao Teatro Viriato).

Reforçar o tecido artístico: formação intensiva em Julho

O Verão traz dois programas de formação que fecham a Teatro Viriato Temporada 2026. O “SUMMER LAB” regressa de 20 a 24 de Julho, em parceria com a PLAY FALSE | associação cultural. O programa intensivo de dança abrange áreas como Dança Clássica, Dança Contemporânea, Repertório, Laboratório Coreográfico e Improvisação. Formadores e coreógrafos de renome internacional orientam as sessões.

De 6 a 11 de Julho, o projecto “Noite Fora” volta pelo segundo ano consecutivo. O Teatro Viriato e Sónia Barbosa apostam na formação e incentivo à criação dramatúrgica. Durante uma semana, autores e potenciais autores participam num laboratório intensivo de escrita teatral, orientado por Sónia Barbosa e Inês Barahona. Dramaturgos reconhecidos juntam-se como convidados especiais para partilhar experiências de escrita.

António M Cabrita. Apresentação da temporada Fevereiro-Julho 2026 do Teatro Viriato em Viseu.
António M Cabrita. Apresentação da temporada Fevereiro-Julho 2026 do Teatro Viriato em Viseu.

Alguns dos espectáculos e datas

  • 6 de Fevereiro: Luca Argel, “O Homem Triste”
  • 13 de Fevereiro: Sara de Castro, “Justiça Cega”
  • 27 de Fevereiro: “Primeira Pessoa do Plural”, de Sandro Aguilar (com Albano Jerónimo e Isabel Abreu)
  • 5 a 7 de Março: Festival AMOSTRA (4.ª edição)
  • 13 de Março: Formiga Atómica, “Só Mais uma Gaivota”
  • 19 e 20 de Março: Paula Diogo, “Aurora (ou Livro)”
  • 15 a 17 de Abril: K Cena, “2062”
  • 23 de Abril: “Archipélago”, Luís Tinoco e Drumming Grupo de Percussão
  • 30 de Abril: Catarina Miranda, “FARSA”
  • 15 e 16 de Maio: “Mudar”, de Marco Paiva, Ana Ventura e Filipe Raposo
  • 23 de Maio: Sara Barros Leitão, “Suplicantes”
  • 29 de Maio: Companhia Nacional de Bailado, “Only Duos”
  • 2 a 6 de Junho: “Teatro Paraíso – Palavra Ambulante”, Trigo Limpo Teatro ACERT
  • 13 de Junho: Exibição de “Flow – à deriva”
  • 26 de Junho: “Dante”, Nacho Flores (Trengo Festival de Circo do Porto)
  • 6 a 11 de Julho: “Noite Fora”, laboratório de escrita teatral
  • 20 a 24 de Julho: SUMMER LAB, formação intensiva em dança

Teatro Viriato: seis meses para pensar com o coração

O que distingue esta temporada do Teatro Viriato não é a quantidade, mas a intenção que atravessa cada escolha programática. António M Cabrita e a equipa do Teatro Viriato montaram uma temporada que questiona, que incomoda, que obriga a pensar, que se liga ao território, à cidade e ao país, e se desliga das inteligências artificiais e de um mundo digital.

Esta primeira temporada 2026 do Teatro Viriato é isto mesmo: um convite à acção. Não basta assistir. É preciso estar presente, discutir, questionar, deixar que o que acontece em palco transborde para a vida e nos faça pensar. 

Num tempo dominado pelo digital e pela pressa, o Teatro Viriato propõe o contrário: presença física, experiência partilhada, tempo para pensar. Nada disto aparece nos cartazes nem enche manchetes, mas são estas “pequenas coisas” que transformam um edifício numa casa, e é isso que o Teatro Viriato no fundo representa para a região. De Fevereiro a Julho, Viseu tem onde ir. E razões de sobra para lá estar.

Site oficial: teatroviriato.com

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Pedro Ribeiro
Escrito por

Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro é o fundador do musica.com.pt. Como músico e produtor conta com mais de 25 anos de experiência no mundo da música, tendo participado em projetos como Peeeedro, Moullinex, MAU, entre outros, e tocando em venues como Lux, Maus Hábitos, Plano B, Culturgest, Glasgow School of Arts, entre muitas outras salas e locais em Portugal e no estrangeiro. Compôs música para teatro (Jorge Fraga, Graeme Pulleyn, Teatro Viriato), dança contemporânea (Romulus Neagu, Peter Michael Dietz, Patrick Murys, Teatro Viriato), TV (RTP2) e várias rádios.