Última atualização: 4 de Agosto de 2026, às 16:21
Como usamos (e não usamos) Inteligência Artificial no musica.com.pt
A partir de 2 de agosto de 2026 entrou em aplicação o Artigo 50.º do Regulamento Europeu da Inteligência Artificial, que obriga a uma maior transparência sobre o uso de IA na produção de conteúdos. Podíamos ter escrito três parágrafos genéricos a citar a lei e ficar por aí, mas achamos que os nossos leitores merecem mais do que isso.
Antes de mais, importa realçar que o musica.com.pt é um jornal de músicos para músicos e para quem vive a música como nós vivemos. E isso muda tudo na forma como olhamos para a IA.
O que valorizamos
Valorizamos a criação artística. Valorizamos a diversidade de vozes, de géneros, de formas de fazer. E valorizamos, talvez mais do que tudo, o erro, aquele acidente feliz tingido a salpicos de cerveja que acontece numa sala de ensaios às três da manhã e que nenhum plano previa.
Picasso dizia que demorou poucos anos a pintar como Rafael, mas precisou de uma vida inteira para aprender a pintar como uma criança. É esse acaso, essa imperfeição genuína, que procuramos e celebramos em cada disco, em cada concerto, em cada artista que cobrimos e em cada texto que escrevemos.
Por isso recusamo-nos a publicar música feita por IA. Recusamo-nos a publicar conteúdo com artefactos sonoros ou de marketing gerados por IA a fazer-se passar por trabalho humano. E recusamo-nos, da mesma forma, a produzir os nossos próprios textos com recurso total a IA. Isso nunca vai acontecer aqui.
O mesmo vale para imagem. Não publicamos capas, fotografias de concertos ou artes promocionais geradas por IA a fazerem-se passar por reais. Uma fotografia de um concerto é prova de que alguém esteve lá e, trocá-la por uma imagem sintética seria mentir aos nossos leitores sobre o que aconteceu.
Há uma diferença, no entanto, entre isso e um artista que decide usar IA no seu próprio trabalho criativo. Se um músico com percurso e obra documentada opta por fazer uma capa de álbum com recurso a IA, seja total ou parcial, é uma escolha artística dele, e nós noticiamos essa escolha, identificada como tal, como noticiamos qualquer outra decisão criativa.
Não é a mesma coisa que nós fabricarmos uma imagem e apresentá-la como real. Uma coisa é reportar o que um artista fez; outra é nós fingirmos.
Onde a IA falha (e onde falhou, connosco)
Testámos e usámos ferramentas como o ChatGPT, o Claude, o Gemini e o Perplexity para geração de texto em vários contextos, ao longo de dois ou três meses. E a conclusão foi sempre a mesma: não serve para o que fazemos.
Muitas das vezes a IA inventa. Atribui um solo fenomenal a um instrumento que nem sequer está na faixa. Descreve momentos de um concerto que nunca aconteceram. Confunde um artista com outro, mistura discografias, distorce factos e esquece datas. Escreve, às vezes, com uma prepotência e uma certeza que não tem cabimento nenhum quando se está a falar da obra de alguém. E frequentemente emite juízos de valor que não têm nada a ver com a nossa linha editorial.
Mais do que os erros factuais, há uma coisa que a IA simplesmente não consegue fazer: ir a um concerto. Ouvir um disco do princípio ao fim. Perceber a obra de um artista como um todo, com a sua evolução, as suas contradições, idiossincrasias, e os seus becos sem saída. Sentir o que está por trás de uma canção, de um momento ou de uma actuação, ou de uma decisão criativa. Isso é trabalho de gente que ouve, que sente e que está lá para dar a cara se correr mal.
Onde a IA nos ajuda
Dito isto, não somos radicais por princípio. Gostamos de tecnologia, gostamos de nos aperceber e acompanhar o que se vai passando à nossa volta. Somos uma equipa pequena (muito pequena na verdade) e qualquer coisa que nos ajude a acelerar o trabalho sem comprometer a nossa qualidade, respeito, valores e dedicação interessa-nos.
Por isso importa esclarecer que, apesar de tudo, podemos eventualmente usar IA para:
- Encontrar um sinónimo ou uma metáfora quando já escrevemos o quarto texto do dia e a cabeça está seca de palavras;
- Acelerar traduções e transcrições, no fundo trabalho literal, mecânico, onde as regras são claras e não há espaço para invenção;
- Organizar ficheiros CSV com as nossas listas de concertos e eventos, depois de toda a recolha de informação ter sido feita pela redação.
- Fazer upscale ou sharpen de imagens e vídeo (especialmente para entrevistas feitas através de Google Hangout ou Zoom, ou outros), ou apoiar na legendagem de vídeos e/ou entrevistas, sempre sem distorcer o original nem acrescentar elementos que lá não estavam.
Nestes casos de imagem e vídeo, verificamos e editamos sempre com muita atenção o resultado antes de publicar, para garantir que fica fiel ao original e que a única coisa que muda é a qualidade (para melhor), nunca o conteúdo.
Nada disto substitui trabalho editorial. É apoio administrativo e mecânico, ponto final.
O que fazemos sempre que usamos IA
Sempre que recorremos a IA, verificamos e corrigimos o resultado. Sem excepção. Confirmamos que nada foi adulterado, que o significado do texto se mantém fiel ao que a redação escreveu originalmente e voltamos a editar mesmo assim, porque regra geral acelera o processo, mas não nos produz o conteúdo final.
Confirmamos que factos, datas e outros dados batem certo com a informação que nos foi transmitida e recolhida. E voltamos a reescrever quatro e cinco vezes se for preciso. A responsabilidade final é sempre nossa, nunca da máquina.
Isto aplica-se a tudo o que publicamos
Esta política não vale só para artigos editoriais. Vale também para conteúdo comercial, patrocinado e reviews. Um artigo pago segue as mesmas regras de um artigo normal, sendo que a única diferença é que dizemos que é pago. Não que baixamos os nossos critérios essenciais e editoriais.
Fala connosco
Se leram um texto nosso e acharam que cheira a IA, ou que há um erro, uma data errada, ou um facto distorcido, digam-nos. Escrevam-nos através do nosso formulário de contacto e vamos corrigir se for o caso. É assim que se constrói confiança, um erro corrigido de cada vez.
Porque é que isto importa
Os nossos leitores seguem-nos porque há qualquer coisa que ressoa. Seja a nossa escrita, a nossa forma de ouvir, a nossa interpretação humana do que vemos e ouvimos em cada concerto ou em cada disco. Se abdicássemos disso, estaríamos a descredibilizar o nosso próprio trabalho e a faltar ao respeito a quem nos lê.
Estamos ao serviço das artes e da música. É para isso que aqui estamos, e é assim que queremos continuar.
Até sempre,
Pedro