cravo lançou “Direito” a 26 de dezembro, oitavo single de um projeto que continua a recusar holofotes e a entregar canções onde a vulnerabilidade não pede licença. Desta vez, a inquietação não vem de fora: é interna, quase paralisante, uma interrogação sobre o que significa fazer as coisas bem quando nada do que passa por nós parece totalmente certo.
A faixa nasce de uma sensação banal mas persistente. Aquela voz interior que nos diz que estamos a falhar, mesmo quando não há evidência concreta. cravo pega nessa dúvida crónica e transforma-a em quatro minutos e meio de aceitação incompleta. Não há resoluções fáceis nem frases motivacionais. Apenas a constatação honesta de que algumas coisas não se endireitam, e que talvez não precisem de o ser. Fica o vídeo de “Direito” em baixo para ouvires.
Gravação analógica para um tema que pede proximidade
A produção de “Direito” marca uma viragem técnica no projeto cravo. Pela primeira vez, a gravação e edição foram feitas inteiramente numa multitracker, sem passar pelo computador. Afinal de contas, o formato analógico impõe limitações que obrigam a decisões definitivas, elimina a tentação de corrigir infinitamente, e deixa marcas na textura sonora que o software não replica.
O resultado sente-se. Há uma qualidade táctil na faixa, uma proximidade que lembra sessões de gravação caseiras dos anos 70 e 80. A voz surge envolvente, quase sussurrada em certos momentos, enquanto os instrumentos respiram sem a compressão e “limpeza” típica das produções digitais contemporâneas. Esta abordagem old-school encontra paralelo no trabalho recente de Connan Mockasin, referência assumida que se nota na forma como a canção envolve o ouvinte sem nunca o pressionar.

O texto de “Direito” funciona como inventário de insuficiências. Uma espécie de crise de meia-idade antes do tempo, onde quase tudo parece provisório excepto o próprio nome. A expressão que dá título à faixa carrega peso duplo: tanto o adjectivo que descreve rectidão e correcção, como a admissão de que essa qualidade permanece inalcançável.
cravo limita-se a olhar para si e a verbalizar o que encontra. A conclusão é simples e despojada: “eu não sei ser direito”. Seis palavras que dispensam elaboração porque dizem exactamente o que precisam de dizer.
Figura que flutua até desaparecer
A componente visual mantém a coerência que define o projeto desde o início. A animação mostra uma figura a elevar-se lentamente, a perder contornos, até se dissolver no ar. O movimento traduz a qualidade etérea da música sem a explicar ou ilustrar literalmente. Há uma suspensão emocional comum a ambas as dimensões, como se canção e imagem partilhassem o mesmo estado de semi-consciência.
A ilustração e animação continuam a ser criadas pelo próprio cravo, mantendo a autonomia total que caracteriza o projeto. Cada lançamento funciona como um cravo, uma peça autónoma onde som e imagem dialogam sem intermediários, sem briefings criativos e sem compromissos com expectativas externas.
Oito meses de lançamentos consecutivos
“Direito” é o oitavo capítulo de uma série iniciada em junho com “Bem-vindos”. Seguiram-se “À Margem”, “Salta Desse Barco”, “Castigo”, “Chuva”, “No Fundo” e “De Lado”. A regularidade mensal exige disciplina particular quando todo o processo criativo recai sobre uma única pessoa: composição, letra, gravação, produção, ilustração e animação.
O projecto cravo nasceu num T0 no centro de Lisboa e continua a operar nesse registo de contenção espacial e criativa. Simão Reis, nome por trás do anonimato deliberado, acumula passagens por projectos como Rei Marte e Too Many Suns, mas aqui optou por retirar o rosto da equação. O que fica é a obra, sem biografia que a sustente ou persona que a promova.
Um projecto que existe por existir
O calendário de “Direito” colocou o lançamento a 26 de dezembro, logo depois do Natal. Data pouco óbvia para quem procura atenção mediática ou posicionamento em playlists sazonais, mas cravo nunca funcionou segundo essa lógica. E é precisamente essa recusa em jogar o jogo que dá valor ao projecto. cravo assume-se como “ode ao erro e à incoerência”, recusando encaixar em gavetas promocionais ou responder a pressões algorítmicas.
Esta oitava faixa confirma a trajectória: música feita sem rede de segurança, que existe porque precisa de existir. Num panorama onde a optimização e copy paste de fórmulas dita cada vez mais as diferentes escolhas artísticas, há algo de refrescante em ouvir alguém admitir que não sabe ser direito. “Direito” de cravo já está disponível em todas as plataformas digitais, não percas!
Instagram: @cravo.cravo.cravo | Bandcamp: @cravocravocravo
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