Bruno Pinto e Xullaji: “Três Tempos” põe jovens de Viseu em palco no Teatro Viriato

Bruno Pinto (Gira Sol Azul) e Xullaji passaram seis meses a trabalhar com jovens de Viseu num projecto que mistura hip hop, rock, música clássica e tudo o que aparecesse pelo caminho. O resultado chama-se “Três Tempos“, subiu ao palco do Teatro Viriato no dia 2 de abril e vai juntar-se às edições de Braga e Lisboa num espectáculo conjunto na Culturgest, a 18 de abril. Falámos com os dois na véspera do espétaculo do “Três Tempos” em Viseu para perceber como se constrói um espectáculo a partir do zero, com adolescentes, instrumentos e zero regras à partida.

Podes ver e ouvir o vídeo da entrevista em baixo:

O projecto “Três Tempos”: três cidades, três mundos

Três Tempos” é uma parceria entre o Teatro Viriato, o Theatro Circo (Braga) e a Culturgest (Lisboa) que junta jovens de cada cidade com músicos e criadores durante meses de trabalho. Cada cidade tem o seu coordenador local e um artista convidado que traz uma sensibilidade diferente. No ano passado, a primeira edição contou com Capicua. Este ano, o convite foi para Xullaji, que trouxe consigo a bagagem do hip hop e de quase três décadas de trabalho com jovens.

Em Viseu, Bruno Pinto foi quem acompanhou os participantes no terreno, sessão a sessão. Em Braga, esse papel coube a Tiago Sampaio, e em Lisboa, a Beatriz Pessoa. Xullaji entrava periodicamente em cada cidade para ouvir o que já existia, sugerir direcções e ajudar a colar os pedaços.

“Eu sou mais uma espécie de pessoa que cola, que sugere, que tira e põe”, explica. “Digo: olha, isto está bué fixe, vamos levar mais longe.”

"Três Tempos", com Bruno Pinto e Xullaji. Teatro Viriato. Crédito Fotografia: Musica.com.pt
“Três Tempos”, com Bruno Pinto e Xullaji. Teatro Viriato. Crédito Fotografia: Musica.com.pt

O ponto de partida de “Três Tempos” foi sempre o mesmo: não impor nada. As letras nasceram de jogos de escrita e de palavra dita. Bruno Pinto lançava dinâmicas, recolhia palavras soltas, construía blocos a partir do que os participantes traziam. Xullaji chegava, olhava para aqueles blocos e perguntava: como é que transformamos isto em canção? Como é que pomos isto numa métrica, diversificamos, colamos?

“Os participantes são o centro de tudo”, resume Bruno Pinto. “Fazemos experiências com eles, jogos de escrita, jogos musicais. Percebemos o que trazem dentro deles. E depois jogamos com isso.”

Bruno Pinto e Xullaji sobre a fusão que ninguém planeou

Cada grupo de participantes chega com o seu próprio universo, e o resultado muda consoante a cidade. Em Braga, havia “uma rocalhada por cima daquilo incrível”, como Xullaji descreve. Em Viseu, o clássico pesou imenso no “Três Tempos“. Vários dos jovens estudam no articulado, no conservatório. Há um violoncelo e um trompete no meio de guitarras eléctricas e vozes que rappam.

Bruno Pinto não se assusta com essa mistura. “Eu por tendência vou para a fusão. Gosto muito de fundir tudo e mais alguma coisa e não tenho fronteiras musicais. Às vezes as pessoas ficam espantadas quando percebem que eu gosto de música clássica ou de hip hop ou de death metal.”

Para Xullaji, essa conversa entre géneros vem da própria natureza do hip hop. E aqui fez questão de abrir o jogo sobre uma coisa que, na sua opinião, Portugal ainda não percebeu bem.

“O hip hop é um offspring do blues, do rock, do jazz, do country, do funk psicadélico e do pop. Não nasce sozinho. Quando ouves uma tarola bruta no hip hop dos anos 90, essa tarola foi samplada de uma cena de death metal. Se ouvires Public Enemy, estás a ouvir muitos samples de rock. Se ouvires A Tribe Called Quest, estás a ouvir jazz. O hip hop já contém essa sensibilidade toda na sua origem.” diz Xullaji

Foi por isso, diz, que o cruzamento com violoncelos e guitarras distorcidas fez sentido, pois a fusão já estava inscrita no ADN desde o ponto de partida.

"Três Tempos", com Bruno Pinto e Xullaji. Teatro Viriato. Crédito Fotografia: Musica.com.pt
“Três Tempos”, com Bruno Pinto e Xullaji. Teatro Viriato. Crédito Fotografia: Musica.com.pt

Seis meses com adolescentes: “altos e baixos”

Trabalhar com jovens de 12 a 16 anos durante meio ano tem tanto de recompensador como de caótico.

Bruno Pinto não esconde: “São bastante novos. A questão da disciplina… apesar de a maior parte deles ter muita experiência musical, aqui não estão na escola. Sentem-se mais à vontade. E às vezes são difíceis de controlar.”

A solução foi manter as sessões de “Três Tempos” vivas. Aquecimentos, jogos, conversas sobre cultura e história do hip hop. Depois, no momento certo, agarrá-los e passar ao trabalho de composição, de letras, de arranjo. Houve sessões em que a coisa fluiu, mas outras nem tanto. O normal.

Mas o que Xullaji viu quando regressou a Viseu em fevereiro, depois de um tempo sem aparecer, surpreendeu-o.

“Tinha havido um salto brutal. Vi uma espécie de orquestra a funcionar. Ainda que num sítio embrionário, já era sólido. Curti bué. Fui logo a picar as outras cidades. Olha, atenção que os mais novos estão a partir a loiça.” refere Xullaji

Bruno Pinto guarda outro momento do “Três Tempos“. Estava em casa a ouvir as gravações dos ensaios quando reparou numa linha de guitarra do Eduardo, um dos participantes. “Quatro ou oito compassos, complexa, longa, e encaixa perfeitamente na harmonia que estávamos a fazer. Fiquei espantado. Este miúdo faz-me aqui esta linha, como é que isto apareceu?”

O encontro que faz falta: gerações, geografias, acessibilidade

Para lá da música, Xullaji vê em “Três Tempos” qualquer coisa que considera urgente. O encontro. Não só entre estilos musicais, mas entre gerações, entre centro e periferia, entre quem sabe música e quem nunca tocou um instrumento.

“Há um encontro geracional que é muito bonito. Nós não nos impomos às ideias deles. Pelo contrário, servimos essas ideias. Numa sociedade em que os mais novos dizem que a culpa é dos velhos e os mais velhos dizem que a culpa é dos novos, tentamos fazer uma escuta. O que é que estas pessoas de 13, 14, 16 anos têm para dizer? Como é que vêem o mundo? Pegamos nessas palavras sem editar as ideias deles. Nunca vi fazerem isso neste projecto: ah, isto não, isto não. Foi sempre um aproveitamento.” afirma Xullaji

E depois há a questão do acesso. Em Viseu como em Braga, os grupos misturam jovens do conservatório com outros que não tocam nada. Xullaji acha isso fundamental: “Desfronteiriza a arte, que em Portugal ainda é muitas vezes elitizada. Às vezes não havendo essa acessibilidade nas escolas, estes lugares podem permitir que pessoas de várias sensibilidades se juntem e façam coisas.”

"Três Tempos", com Bruno Pinto e Xullaji. Teatro Viriato. Crédito Fotografia: Musica.com.pt
“Três Tempos”, com Bruno Pinto e Xullaji. Teatro Viriato. Crédito Fotografia: Musica.com.pt

Uma prova de que o projecto funciona para lá das sessões: alguns dos participantes de Viseu começaram a combinar formar uma banda entre si. Gente que não se conhecia há seis meses, a procurar sítio para ensaiar e a decidir quem faz o quê. “Isso é muito bonito”, diz Xullaji. “Estes projectos normalmente acontecem, acabam e não há mais nada. É fixe quando possibilita uma vida para além do projecto.”

“Se eu tivesse tido isto aos 15, era tudo”

A conversa escorregou naturalmente para as memórias pessoais. Bruno Pinto cresceu numa aldeia a 30 quilómetros de Viseu onde não se passava nada. Teve a sorte de encontrar dois ou três amigos que ouviam o mesmo tipo de música e montaram uma banda. “Passaram 20 pessoas pela banda até estabilizar.” Mas o isolamento pesava. Em Viseu havia um burburinho de bandas de garagem nos anos 80 e 90, e eles nem percebiam como se ligar a isso. “Eu aos 15, 16 já me via a tocar em cima de um palco, não sei como. Depois, ao chegar à vida adulta, fui percebendo: como é que eu vou fazer isto? Quem é que eu me vou agarrar?”

Xullaji, que cresceu nos arredores de Lisboa mas tem trabalhado com jovens por todo o país, sublinha: “Um projecto destes quando eu era adolescente era tudo. Para abrir horizontes, para possibilitar que podemos estar num palco deste tamanho a rappar ou a cantar. Eu trabalho com jovens há quase 30 anos e sei que às vezes é uma coisinha destas que faz uma inflexão na vida.”

E não é só a música. Os participantes aprendem como se monta um espectáculo. Desde o palco vazio até ligar cabos, montar microfones, desenhar luz. Como se metrifica uma letra, como se arranja, como se passa de um riff para uma canção. Uma caixa de ferramentas que a escola de música, por si só, não dá.

"Três Tempos", com Bruno Pinto e Xullaji. Teatro Viriato. Crédito Fotografia: Musica.com.pt
“Três Tempos”, com Bruno Pinto e Xullaji. Teatro Viriato. Crédito Fotografia: Musica.com.pt

O espectáculo no Teatro Viriato e o que vem a seguir

Sobre o que o público ia ver no Teatro Viriato, os dois recusaram a descrição prévia de “Três Tempos“. Bruno Pinto manteve o foco no essencial: “Estamos concentrados na música e na interpretação. Em conseguir fazer passar as letras. Que os miúdos tenham uma boa interpretação e metam palco.”

Xullaji foi mais directo: “Não vou dizer. As pessoas quiserem, vêm ver, percebem e descobrem. Às vezes leio folhas de sala e depois quando vou ver as coisas não está lá nada do que se disse. O bonito é vir de coração aberto.”

A 18 de abril, os três grupos de “Três Tempos” encontram-se na Culturgest, em Lisboa, para um espectáculo conjunto. A intenção não é apresentar Braga, Viseu e Lisboa como blocos separados. “Isso acho super desinteressante”, atira Xullaji. O objectivo é ligar. Que qualquer coisa que “espirre” de um grupo contamine o seguinte. Que se perceba que jovens de pontas diferentes do país, trabalhando em separado, acabaram por escrever sobre coisas muito próximas. “Só isso já tem uma solidez brutal.”

Três Tempos na Culturgest: informação prática

Espectáculo conjunto dos três grupos (Viseu, Braga e Lisboa)

  • Data: 18 de abril de 2026
  • Local: Culturgest, Lisboa
  • Parceiros do projecto: Teatro Viriato (Viseu), Theatro Circo (Braga), Culturgest (Lisboa)
  • Coordenação artística: Xullaji (artista convidado), Bruno Pinto (Viseu), Tiago Sampaio (Braga), Beatriz Pessoa (Lisboa)

Muito mais que um concerto de fim de projecto

Três Tempos podia ser apenas mais um projecto comunitário com jovens. Oficina de música, concerto, aplausos e acabou. Mas o que Bruno Pinto e Xullaji descrevem vai noutro sentido. Há aqui em “Três Tempos” qualquer coisa que se parece mais com uma rede: jovens que se descobrem uns aos outros, que formam bandas, que aprendem a pensar a composição de outra maneira e vêm o espétaculo a crescer a cada dia que passa. Se isto é importante? Sem dúvida. Que venham os próximos tempos!

Teatro Viriato: teatroviriato.com | Xullaji: xullaji.org | Girasol Azul: girasolazul.com

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Pedro Ribeiro
Escrito por

Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro é o fundador do musica.com.pt. Como músico e produtor conta com mais de 25 anos de experiência no mundo da música, tendo participado em projetos como Peeeedro, Moullinex, MAU, entre outros, e tocando em venues como Lux, Maus Hábitos, Plano B, Culturgest, Glasgow School of Arts, entre muitas outras salas e locais em Portugal e no estrangeiro. Compôs música para teatro (Jorge Fraga, Graeme Pulleyn, Teatro Viriato), dança contemporânea (Romulus Neagu, Peter Michael Dietz, Patrick Murys, Teatro Viriato), TV (RTP2) e várias rádios.

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