Rui Massena lança “Parents’ House”, um disco de piano que espelha gerações

O mais recente trabalho de Rui Massena, compositor e maestro portuense, chama-se Parents’ House, um disco de piano solo que chegou a público no passado dia 17 de outubro. Dois anos depois do seu último trabalho, o músico regressa com uma proposta que foge ao mero exercício técnico e se assume como um mapa afectivo de quem atravessou a ponte entre ser filho e tornar-se pai.

São 14 faixas que respiram e fluem sem fórmulas previsíveis, construídas numa linguagem pianística que privilegia o espaço melódico e emocional sobre a saturação cordal. Rui Massena não procura ornamentar em demasia: cada nota e motivo parecem escolhidos para desenhar uma ideia clara, um fragmento de memória ou uma impressão fugidia. O resultado é um álbum que nos embala, sem pressa, onde o silêncio, a saudade e a ausência também têm peso. Podes ver em baixo o vídeo de “Parents’ House”, feito com registos da infância de Rui Massena.

Da sala de estar ao estúdio: como nasceu o discoParents’ House

Esta é a minha jornada mais íntima: a casa dos meus pais e a casa onde hoje em dia sou pai“, explica o compositor Rui Massena. “É o mais bonito e desafiante ciclo da vida. Este álbum é sobre essa magia, sobre o fio contínuo que liga gerações.

Em “Parents’ House“, há uma vontade de Rui Massena em traduzir em música aquilo que tantas vezes escapa às palavras: a sensação e emoção de regressar a espaços que fizeram de nós quem somos, agora carregando a responsabilidade de moldar a(s) próxima(s) gerações. Não se trata de nostalgia romantizada, mas de um olhar frontal sobre o peso e a leveza da herança familiar, sobre o presente, passado e futuro.

O single homónimo “Parents’ House“, disponibilizado a 3 de outubro, funciona como porta de entrada para este universo. É uma peça introspectiva, onde a melancolia surge sem dramatismo excessivo, apenas como tonalidade natural de quem observa o tempo a passar e reconhece, nessa passagem, memórias, afectos e semelhanças.

Rui Massena ao vivo em Mangualde. Crédito Fotografia: Instagram, @ruimassenamaestro
Rui Massena ao vivo em Mangualde. Crédito Fotografia: Instagram, @ruimassenamaestro

É um álbum para se ouvir do príncipio ao fim e, por muito que gostasse de destacar esta ou aquela faixa (“mãe”, “memórias de um paraíso” ou “cigarette” por exemplo), acaba por ser injusto, pois todas formam um trabalho extremamente coeso e emocional, e onde acaba por ser impossível realçar qualquer uma. Todos os temas tem o seu peso e doçura individualmente, mas no conjunto, transformam-se numa história bonita e na banda sonora perfeita para dias chuvosos e de céu cinzento – tal e qual como hoje.

Tracklist do álbum “Parents’ House” de Rui Massena

  1. cigarette
  2. fosse
  3. low fences
  4. memórias de um paraíso
  5. nocturne
  6. parents’ house
  7. not to be said
  8. questions
  9. check your mirrors
  10. langsam
  11. mãe
  12. terno
  13. see you
  14. grateful

Rui Massena, capa do álbum "Parents' House"
Rui Massena, capa do álbum “Parents’ House”

Neoclássico sem estereótipos

Inserir Parents’ House na etiqueta “neoclássico” é inevitável, especialmente depois de ler a nota de imprensa, mas também redutor. O disco dialoga com essa tradição contemporânea onde compositores como Yann Tiersen, Max Richter, Robert Glasper (embora Glasper venha de uma linguagem mais jazz) ou Ólafur Arnalds transformaram o piano numa ferramenta de narrativa emocional directa. Contudo, Rui Massena traz um sotaque próprio, marcado pela sua longa experiência como maestro e pela forma como pensa a composição enquanto arquitectura, não apenas enquanto expressão espontânea.

Há aqui uma consciência estrutural que impede o álbum de se perder em divagações ambient ou clichés. Mesmo nos momentos mais etéreos, sente-se uma intenção composicional clara, uma vontade de conduzir o ouvinte através de percursos emocionais específicos. O instrumento é tratado com respeito técnico, mas também com uma intimidade que só surge após muitos anos, onde o compositor conhece e respira profundamente as possibilidades expressivas do seu meio.

“Parents’ House”: Apresentações ao vivo

Rui Massena tem três concertos agendados para os próximos tempos, eventos únicos que funcionam igualmente como apresentação de “Parent’s House” e como celebração de dez anos dedicados às suas próprias composições. As datas são as seguintes:

  • 10 de Dezembro – Casa da Música, Porto
  • 11 de Dezembro – Centro Cultural de Belém, Lisboa
  • 16 de Dezembro – Fórum, Braga

Rui Massena ao vivo em Cerveira, Palco das Artes. Crédito Fotografia: Instagram, @ruimassenamaestro
Rui Massena ao vivo em Cerveira, Palco das Artes. Crédito Fotografia: Instagram, @ruimassenamaestro

Estes espectáculos ao vivo prometem ser mais do que simples reproduções do repertório gravado, onde decerto os temas serão pintados com camadas interpretativas que só o momento presente pode trazer. Quem acompanha o percurso de Rui Massena sabe que os seus concertos tendem a privilegiar a comunicação directa com o público, transformando a sala de espectáculos num espaço de partilha genuína, longe da solenidade distante que ainda marca muitos eventos de música erudita ou contemporânea.

Trajectória consolidada

Parents’ House insere-se numa discografia extrememante relevante, que inclui Solo (2015), Ensemble (2016), III (2018, editado pela prestigiada Deutsche Grammophon), o EP 20PERCEPTION (2021, também pela DG), Christmas Walk (2021) ou a banda sonora de “A Maçã de Ouro/La Manzana de Oro”.

A edição mundial através da Deutsche Grammophon, selo histórico que já representou nomes como Herbert von Karajan, Leonard Bernstein ou Martha Argerich, colocou Rui Massena ao mesmo nível dos “grandes”. Ver a sua música publicada numa editora que já representou compositores como Philip Glass ou Ludovico Einaudi é um orgulho (para ele e todos nós), e o reconhecimento de anos de trabalho consistente, tecnicamente sólido e artisticamente coerente.

Rui Massena: um percurso singular

Nascido no Porto em 1972, Rui Massena construiu uma trajectória que começou cedo. Aos cinco anos tocava as primeiras peças; aos oito, compunha. Seguiu-se o liceu e a universidade, onde tirou a licenciatura em Direcção de Orquestra. Aos 27 anos assume a Direcção Artística e tornou-se Maestro titular da Orquestra Clássica da Madeira durante doze anos. Entre 2001 e 2013 dirige mais de 30 orquestras em 14 países. Em 2010 funda a Fundação Orquestra Estúdio e lidera o projecto musical de Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012.

Essa experiência como maestro sem dúvida deixou marcas profundas no modo como Rui Massena compõe. Há uma compreensão orgânica das dinâmicas musicais, uma capacidade de pensar a composição como diálogo entre elementos, mesmo quando o único interlocutor é o piano. O músico que dirigiu orquestras inteiras parece carregar consigo essa memória de forma leve, e quando se senta sozinho ao piano, isso sente-se.

Nos últimos anos levou o seu trabalho para outras áreas, assinando bandas sonoras para cinema e TV, apresentando programas sobre música clássica na televisão portuguesa, e mantendo uma actividade pedagógica e divulgadora. Em 2021 foi-lhe atribuida a Medalha de Mérito Cultural e Científico, Grau Ouro, da Cidade do Porto, reconhecimento que se soma a outras distinções nacionais e internacionais.

Uma porta que se abre

Parents’ House não é um disco sobre o passado, mas sobre a forma como o passado habita o presente, e transforma o futuro. Rui Massena abre-nos de forma doce a porta dessa casa que é simultaneamente memória e realidade, abraço de reencontro e despedida, um espaço onde se foi filho e onde se é pai. Ao fazê-lo, cria um território sonoro que muitos reconhecerão como seu, mesmo sem nunca terem pisado fisicamente essa morada. Pela nossa parte, ficámos felizes de fazer parte desta viagem. Vai ser sem dúvida um álbum para ouvir bastantes vezes.

Resta-nos dizer que o álbum já está disponível nas plataformas digitais do costume e em formato físico, e para não perderem os concertos de Rui Massena caso estejam por perto – não vão sair de lá os mesmos.

Nota do autor: Este artigo não foi patrocinado pela Universal Music nem copy pasta da release. Foi de ❤️ mesmo.

Instagram: @ruimassenamaestro | Facebook: @ruimassenamaestro

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Pedro Ribeiro
Escrito por

Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro é o fundador do musica.com.pt. Como músico e produtor conta com mais de 25 anos de experiência no mundo da música, tendo participado em projetos como Peeeedro, Moullinex, MAU, entre outros, e tocando em venues como Lux, Maus Hábitos, Plano B, Culturgest, Glasgow School of Arts, entre muitas outras salas e locais em Portugal e no estrangeiro. Compôs música para teatro (Jorge Fraga, Graeme Pulleyn, Teatro Viriato), dança contemporânea (Romulus Neagu, Peter Michael Dietz, Patrick Murys, Teatro Viriato), TV (RTP2) e várias rádios.

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