Ramón Galarza Celebra 50 Anos de Carreira com “SONUS”, o Novo Álbum Instrumental da Sua Banda

Meio século a moldar a música em Portugal. Não é exagero nem figura de estilo. Ramón Galarza atravessou cinco décadas da nossa música como poucos conseguiram: da bateria dos Banda Sonora com Rui Veloso até às orquestrações da Filarmónica Portuguesa, passando pelos estúdios onde gravou artistas bastante relevantes do panorama nacional.

Agora, aos 50 anos de carreira, apresenta “SONUS”, o terceiro álbum da Ramón Galarza’s Band, e, se há coisa que este disco demonstra, é que a inquietação criativa e musical não envelhece – matura que nem vinho do Porto e transforma-se num néctar que só meio século de ofício consegue destilar. Deixamos em baixo o vídeo do single escolhido para este lançamento, “Hearts”.

“SONUS”: Dez Temas, Uma Visão

“SONUS” chega às plataformas digitais com dez composições originais, todas assinadas por Ramón Galarza. O território é familiar para quem acompanhou os anteriores “Galarza” (2018) e “Qu’est-ce qui se passe?” (2022): uma base forte em raízes jazz que depois se ramifica e funde vários elementos, seja funk, rock, bandas sonoras de Morricone ou Schifrin, gravações de Coltrane ou Hancock, e aquela abordagem contemporânea que bebe de várias épocas, dos 60s passando pelos 80s e continuando por aí a fora, da world music, e sem nunca perder a identidade própria. Sendo um registo instrumental do início ao fim, “SONUS” dispensa palavras para comunicar.

O albúm abre as suas portas com “Orchestrator”, começando devagar e a embalar-nos com a secção rítmica e alguns acordes esporádicos, mas que depressa abre e vai-se revelando em todo o seu esplendor, quase como um regresso a casa onde nos sentimos imediatamente bem vindos.

Continuando com a analogia (até porque faz sentido), o tema seguinte, “Wake Up” leva-nos ao dia seguinte, onde acordamos lenta e confortavelmente, sendo depois atirados para fora da cama através do solo de guitarra que pisca o olho a sonoridades mais rock, e que nos serve o café matinal para acordarmos definitivamente.

Segue-se “Algoritmico”, um tema sem dúvida camaleónico, que oscila entre rock e jazz psicadélico, com o sintetizador a brilhar no que podemos chamar de refrão, e que depois regressa à sua matriz sempre mais ancorada no jazz. O quarto tema do álbum é “Hearts” (podem ver o vídeo em cima), e serve de banda sonora perfeita para aqueles momentos mais melancólicos, nostálgicos, ou aquele jantar romântico às luz das velas e onde tudo pode acontecer.

“Duques e Duquesas” serve de contraste com o tema anterior, onde o baixo e o clavinet nos transportam para um universo mais funk, sem nunca largar a pegada do jazz, neste caso mais melódico, e amplificado pela presença do trompete. Seguem-se “Free Garden” e “Ambiguous”, temas que continuam a misturar magistralmente as diversas influências e cores que ajudaram a pintar este registo.

Os três temas finais, “Lame”, “Gonzalez” e “Virtuous” levam-nos mais uma vez a trilhar os caminhos do jazz, com momentos mais melódicos, ou mais improvisados, mas sempre com um fio condutor bem definido e que encerram o álbum na perfeição.

Ramón Galarza's Band, capa do álbum "SONUS"
Ramón Galarza’s Band, capa do álbum “SONUS”

Ficha técnica

A Ramón Galarza’s Band tem na sua formação os seguintes elementos: Diogo Sebastião dos Santos nos teclados e piano, Ryoko Imai nas percussões, tanto tímbricas como rítmicas, Bernardo Fesch no baixo, e o próprio Ramón Galarza dividido entre bateria, percussões, teclados e programações. Moisés Fernandes completa o quinteto com trompete e flugel.

Mas há mais gente neste disco da Ramón Galarza’s Band. Miguel Noronha de Andrade empresta as guitarras, enquanto a secção de sopros ganha reforços de peso: Náná Sousa Dias, Desidério Lázaro e Paulo Gravato nos saxofones, Daniel Dias no trombone. Raquel Queirós acrescenta o violoncelo, trazendo uma textura que expande a paleta sonora do grupo. A produção de “SONUS” ficou a cargo de Ramón Galarza e Bernardo Fesch.

Alinhamento de “Sonus”

  • Orchestrator
  • Wake-Up
  • Algoritmico
  • Hearts
  • Duques & Duquesas
  • Free Garden
  • Ambiguous
  • Lame
  • Gonzalez
  • Virtuous

Cinquenta Anos Não Se Fazem Por Acaso

Para compreender “SONUS”, convém recuar. E recuar bastante. Ramón Galarza, filho do maestro basco Shegundo Galarza, começou a estudar piano, percussão, solfejo e harmonia ainda miúdo. Em 1976, com o país a descobrir-se em democracia, estreou-se como baterista. Passou por vários grupos, fez trabalho de estúdio, e acabou por respirar o ofício: noite após noite, disco após disco.

Entre os nomes com quem trabalhou nesta altura, temos Zeca Afonso, sendo percussionista no disco “Com as minhas tamanquinhas”, e colaborou também com José Cid como baterista e compositor na obra prima “10,000 anos depois entre Vénus e Marte”.

Depois vieram os anos 80 e os Banda Sonora, com Rui Veloso, e onde participou como baterista em “Ar de Rock”, “Um café e um bagaço” (single), “Fora de Moda”, entre outros discos que acabaram por moldar a música portuguesa. Em 1983, Ramón Galarza vira produtor e é aqui que a história ganha outra dimensão.

A lista de artistas com quem trabalhou dispensa apresentações: Xutos e Pontapés (coproduziu “88” e “Gritos Mudos”, tocou teclados com a banda durante dois anos), Rão Kyao, Banda do Casaco, Doce, Carlos Paião, Dulce Pontes, Rita Guerra, Adelaide Ferreira, Afonsinhos do Condado, Marco Paulo, entre tantos outros. Os Gato Fedorento também passaram pelo seu estúdio – em 1986 fundou a Tchatchatcha, a sua empresa de produções musicais, com estúdios próprios em funcionamento até ao dia de hoje.

O primeiro álbum a solo, “Herr G – 51.11”, surgiu em 2009. Nove anos depois nasceu a Ramón Galarza’s Band com “GALARZA”, seguido de “Qu’est-qui se Passe” em 2021, um disco que já mostrava esta inclinação para o jazz/fusão de várias influências. Em 2022, no Coliseu do Porto, assumiu a direcção musical de “A Festa do Circo”. Um ano depois, concretizou um sonho antigo: “SYMETRIX UNIVERSE”, uma obra instrumental executada pela Orquestra Filarmónica Portuguesa.

Da Televisão às Telenovelas

A carreira televisiva de Galarza merece sem dúvida um ou dois parágrafos à parte. Foi produtor musical da RTP, participou em onze Festivais da Eurovisão. “Rua Sésamo” passou pelas suas mãos, assim como “Em Português nos entendemos” e o “Jardim da Celeste”. A Disney também bateu à porta – produziu “Clássicos Disney” e “Uma História por dia” para o mercado português. Com Herman José, foi director musical e baterista em “O Tal Canal”, “Hermanias” e “Crime na Pensão Estrelinha”.

E depois há as telenovelas. “Último Beijo”, “Jóia de África”, “Saber Amar”, “Amanhecer”, “Coração Malandro”, “Morangos com Açúcar”, “Queridas Feras”. A banda sonora incidental de todas elas tem a assinatura de Galarza. Milhões de portugueses ouviram a sua música sem saber que era dele. E claro, todos nos lembramos de Ramón Galarza como júri em “Chuva de Estrelas” e “Ídolos”.

Em jeitos de final

“SONUS” é assim a continuação natural de todo este percurso gigante. Rodeado por músicos de qualidade inquestionável, este é um álbum que não tenta provar nada a ninguém, pois Galarza já provou tudo o que tinha a provar. Em vez disso, oferece música. Sofisticada, sim. Complicada ou dissonante? Não. Madura, certamente. E sobretudo livre e extremamente bem executada. Por nós, ficamos felizes também por ver que em cinquenta anos de carreira, a inquietação e a vontade de criar continuam intactas.

“SONUS” da Ramón Galarza’s Band já está disponível em todas as plataformas digitais, não percas!

Instagram: @ramongalarzaoficial

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Pedro Ribeiro
Escrito por

Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro é o fundador do musica.com.pt. Como músico e produtor conta com mais de 25 anos de experiência no mundo da música, tendo participado em projetos como Peeeedro, Moullinex, MAU, entre outros, e tocando em venues como Lux, Maus Hábitos, Plano B, Culturgest, Glasgow School of Arts, entre muitas outras salas e locais em Portugal e no estrangeiro. Compôs música para teatro (Jorge Fraga, Graeme Pulleyn, Teatro Viriato), dança contemporânea (Romulus Neagu, Peter Michael Dietz, Patrick Murys, Teatro Viriato), TV (RTP2) e várias rádios.