cravo declara-se em “Fá Sustenido”

cravo lançou “Fá Sustenido”, décimo single de uma série mensal que pela primeira vez abandona a introspecção solitária para olhar directamente para outra pessoa. A canção é uma declaração de amor à mulher de cravo, e foi escrita a propósito do aniversário da relação.

O tema funciona como gesto de quem reconhece que, por muito alienado que se sinta do mundo, existe sempre uma presença que o traz de volta à realidade. Este lançamento traz também o habitual vídeo a acompanhar, mais uma animação feita pelo próprio, e onde o podemos ver a dançar tango com a sua mulher. Fica o vídeo de “Fá Sustenido” para veres em baixo.

Uma canção de amor escrita em linguagem de músico

Sonicamente, “Fá Sustenido” encosta-se a um registo jazzy e blues, com um swing deliberado e volátil que dá à canção uma cadência bêbada de afecto. As guitarras, com bends e slides, trabalham como uma voz paralela que comentam, sublinham e por vezes contradizem o que a letra nos canta.

A letra de “Fá Sustenido” é construída recorrendo a diversos termos usados no mundo da música, e onde cada termo carrega um segundo significado que transforma a canção num jogo de espelhos entre a música e o afecto.

Logo no primeiro verso, “sou fá do facto de seres fá sustenido” instala a “brincadeira” que percorre a canção inteira. O capo, ferramenta que permite alterar, adaptar e transpor a afinação do instrumento, aparece então como uma metáfora de proximidade – “ponho o capo no espaço que me dás no teu ouvido”. Aqui, o gesto é o mesmo: adaptar-se ao outro, encontrar o tom certo para poder cantar e viver esse amor.

A transposição entra no verso seguinte como aquilo que permite “cantar alto e assaltar-te com o meu amor”. É um verso desarmante na sua frontalidade e bem mais eficaz por vir embrulhado numa linguagem que lhe retira qualquer laivo de pieguice.

Cravo, capa do single "Fá Sustenido"
Cravo, capa do single “Fá Sustenido”

O remate final fecha o círculo: “no meu peito só sinto um ardor que eu suspeito ser perfeito como um acorde maior”. Em teoria musical, o acorde maior significa também resolução e luminosidade, o descanso depois da dissonância e tensão. Para cravo, esse acorde é a pessoa a quem se dirige, a sua conclusão harmónica em formato humano.

Com 1 minuto e 55 segundos, “Fá Sustenido” diz o que tem a dizer, faz a vénia à pessoa amada e sai de cena. Uma declaração de amor que dispensa refrões e pede um bis (ou um tris). É uma canção curta, directa, cheia de camadas escondidas na linguagem, e que prova que num projecto onde o erro e a incoerência são celebrados, também cabe um acorde maior/perfeito.

O décimo cravo do jardim

“Fá Sustenido” é o décimo lançamento consecutivo do jardim de cravo, que mantém a cadência mensal a que se propôs inicialmente, assim como a autonomia total: composição, voz, edição, produção, ilustração e animação continuam a ser a obra de uma só pessoa no seu têzero (T0).

Até aqui, cravo olhava sobretudo para dentro: a melancolia de “No Fundo”, a dúvida de “Direito”, a imperfeição aceite de “De Lado”, a honestidade assumida de “Lição”. Em “Fá Sustenido”, cravo olha para fora e encontra alguém. A solidão que durante meses serviu de combustível criativo dá lugar ao reconhecimento de que existe outra pessoa capaz de funcionar como âncora.

O título nasce de uma intuição quase sinestésica: fá sustenido é o tom que a mulher de cravo lhe parece ter desde que a conhece. Atribuir uma nota musical a alguém será também um dos gestos mais íntimos que um músico pode fazer, dando a esse alguém um lugar primordial na sua escala e uma posição bem definida no seu instrumento-pessoa.

“Fá Sustenido” de cravo já está disponível em todas as plataformas digitais, não percas!

Instagram: @cravo.cravo.cravo | Bandcamp: @cravocravocravo

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Pedro Ribeiro
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Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro é o fundador do musica.com.pt. Como músico e produtor conta com mais de 25 anos de experiência no mundo da música, tendo participado em projetos como Peeeedro, Moullinex, MAU, entre outros, e tocando em venues como Lux, Maus Hábitos, Plano B, Culturgest, Glasgow School of Arts, entre muitas outras salas e locais em Portugal e no estrangeiro. Compôs música para teatro (Jorge Fraga, Graeme Pulleyn, Teatro Viriato), dança contemporânea (Romulus Neagu, Peter Michael Dietz, Patrick Murys, Teatro Viriato), TV (RTP2) e várias rádios.

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