A encenadora e actriz Sara de Castro traz a peça “Justiça Cega” ao Teatro Viriato esta sexta-feira, 13 de fevereiro, às 21h00. A produção do colectivo Dentro do Covil parte de três figuras de mulheres acusadas de filicídio para dissecar a forma como o sistema judicial opera sobre corpos e narrativas femininas. Depois da estreia no São Luiz Teatro Municipal em Lisboa, Viseu é a primeira paragem de uma digressão que passará ainda pelo Montijo e por Pombal.
O espectáculo confronta o público com uma cena desconcertante: uma mulher que não diz uma única palavra enquanto duas advogadas e uma juíza discutem e decidem o seu destino. O silêncio não é opção, é imposição. E é precisamente aí que Sara de Castro ancora a sua interrogação: quem fala em nome de quem? E o que acontece quando a voz das arguidas se perde nos rituais processuais da teatralização jurídica?
Uma dramaturgia que cruza mito, tragédia e realidade
Sara de Castro foi buscar matéria-prima a três fontes distintas: a Medeia de Eurípides, o mito mexicano de La Llorona e um caso real do sistema judicial português. As três figuras partilham o mesmo crime e a mesma condenação moral quase universal, mas os contextos em que actuaram são radicalmente diferentes.
A encenadora não pretende ilibar ninguém. O exercício é outro: o que mudaria se o sistema judicial tivesse sido desenhado por mulheres? Como seria um tribunal que não apagasse a complexidade das narrativas femininas, mas as transformasse em ponto de partida para fazer justiça? São perguntas incómodas, e “Justiça Cega” não oferece conforto.
A dramaturgia de “Justiça Cega”, assinada por Sara de Castro com contributos de Ana Pais, Gaya de Medeiros, Nuno Pinheiro e Teresa Coutinho, evita o panfleto. O texto move-se entre a aridez processual e a carga emocional das histórias individuais, construindo tensão sem cair em sentimentalismos. Há momentos em que os protocolos judiciais são citados quase verbatim, outros em que a linguagem se liberta e ganha contornos mais viscerais.
“Justiça Cega”: Elenco e equipa técnica
Em palco estão cinco actrizes: Ana Brandão, Ana Ribeiro, Gaya de Medeiros, Carla Galvão ou Teresa Coutinho e Ema de Castro Silva. A concepção plástica é de Eric da Costa, a iluminação de Teresa Antunes, e a música original de Rui Lima e Sérgio Martins. A produção é do Dentro do Covil, com coprodução do Teatro Viriato, Teatro-Cine de Pombal, Teatro José Lúcio da Silva e São Luiz Teatro Municipal.
Sara de Castro: percurso entre palco e bastidores
Sara de Castro nasceu em Lisboa em 1975 e trabalha profissionalmente em teatro desde 1998. Formou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema e passou por companhias como o Teatro O Bando, onde desempenhou funções que vão da actuação à coordenação financeira e à encenação. Foi nomeada para o Prémio Autores da SPA em 2018 na categoria de melhor actriz de teatro e leccionou Dramaturgia e Técnicas Performativas no Chapitô.
O seu trabalho como encenadora assume o que chama de “ética feminina”, não no sentido de excluir colaboradores masculinos, mas de recusar hierarquias rígidas e atribuir aos actores função de motor criativo. Os temas que escolhe partem de um olhar assumidamente feminino e socialmente implicado. “Justiça Cega” é a materialização mais directa dessa abordagem.
Informação prática
| Espectáculo | Justiça Cega |
| Encenação | Sara de Castro |
| Local | Teatro Viriato, Viseu |
| Data | 13 de fevereiro de 2026 |
| Hora | 21h00 |
| Classificação | M/14 anos |
| Bilhetes | Bilheteira do Teatro Viriato, site do Teatro Viriato e BOL |
Teatro que incomoda, como deve ser
“Justiça Cega” não é espectáculo para consumo passivo. Pede que se pense, que se discuta, que se volte a casa com perguntas sem resposta. O Teatro Viriato, que foi coprodutor do projecto desde a fase de residência artística, recebe esta peça no âmbito da sua programação dedicada a assuntos contemporâneos que merecem debate na comunidade.
Num momento em que casos mediáticos de violência doméstica e crimes passionais continuam a ocupar manchetes, a proposta de Sara de Castro ganha urgência adicional. O sistema judicial existe para fazer justiça, mas a quem serve realmente? E quem fica de fora, silenciado, quando as alegações finais já foram proferidas?
A resposta, como sempre, está no palco. Não percas!
Site oficial do Teatro Viriato: teatroviriato.com | Instagram: @teatro_viriato
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