O silêncio que se instalou no dia 13 de setembro marca o fim de uma era na música brasileira e mundial. Hermeto Pascoal Oliveira da Costa, conhecido simplesmente como Hermeto ou “O Bruxo”, partiu aos 89 anos no Rio de Janeiro, vítima de fibrose pulmonar, deixando um legado que desafia qualquer tentativa de categorização.
Nascido a 22 de junho de 1936 em Lagoa da Canoa, então distrito de Arapiraca, Hermeto Pascoal chegou ao mundo com características que o marcariam para sempre: albino e estrábico, condições que o afastaram do trabalho na roça mas que o aproximaram de algo muito mais precioso: o universo sonoro que o rodeava. Esta singularidade física tornou-se metáfora perfeita para o seu percurso artístico: sempre à margem do convencional, sempre a descobrir beleza onde outros veem apenas ruído. Em baixo deixamos-te uma pequena biografia e também alguns vídeos para ficares a conhecer melhor o génio de Hermeto Pascoal.
Os Primeiros Sons de um Génio Inquieto
A infância de Hermeto Pascoal foi uma sinfonia de descobertas. Filho de um sanfoneiro, cresceu numa casa onde a música fazia parte do dia-a-dia. Aos sete ou oito anos apoderou-se do acordeão de oito baixos do pai e nunca mais o largou. Mas o que distinguia este miúdo alagoano era a sua capacidade de encontrar música em tudo: canos de mamona transformavam-se em pífaros para dialogar com os pássaros, as águas da lagoa tornavam-se instrumentos líquidos, e os restos de metal do avô ferreiro penduravam-se num varal improvisado para gerar sons únicos.
Esta relação visceral com a natureza e com objectos quotidianos seria uma constante ao longo de toda a sua carreira. Hermeto não apenas tocava música, ele descobria música por toda a parte, até onde ela se escondia.
A parceria com o irmão José Neto nos forrós e casamentos locais foi a primeira escola formal deste autodidata nato. Em 1950, aos catorze anos, a mudança para Recife marcou o início de uma jornada que o levaria dos estúdios da Rádio Tamandaré às salas de concerto mais prestigiadas do mundo.
Do Nordeste ao Mundo: Uma Trajectória Singular
A passagem pela Rádio Jornal do Commercio, onde formou o trio “O Mundo Pegando Fogo” com José Neto, revelou uma faceta fundamental da personalidade de Hermeto Pascoal: a recusa em aceitar limitações artísticas. Quando o director o quis relegar ao pandeiro, negou-se terminantemente. Queria tocar acordeão, não acompanhar. Esta teimosia custou-lhe o posto e foi enviado para a Rádio Difusora de Caruaru como “refugo”. Episódios assim ajudaram a definir um carácter que jamais se dobraria às conveniências do mercado.

A descoberta do piano, por volta de 1954, através do convite do guitarrista Heraldo do Monte para tocar na Boate Delfim Verde, abriu-lhe novos horizontes. Aqui começou a revelar-se a versatilidade instrumental que se tornaria uma das suas marcas: acordeão, piano, flauta, saxofone, todos dominados com igual mestria e originalidade.
O Rio de Janeiro, para onde se mudou em 1958, representou a primeira grande metrópole na vida deste nordestino. Ali, no Regional de Pernambuco do Pandeiro e depois nos conjuntos de Fafá Lemos e do Maestro Copinha, Hermeto Pascoal começou a construir a reputação que o acompanharia: músico excepcional, mas inclassificável.
O Quarteto Novo e a Revolução Sonora
São Paulo, em 1961, trouxe o Som Quatro e depois o Sambrasa Trio, mas foi o Quarteto Novo, formado em 1966, que catapultou Hermeto Pascoal para o panteão da música brasileira. Ao lado de Heraldo do Monte, Théo de Barros e Airto Moreira, criou uma sonoridade que misturava jazz, música erudita e ritmos brasileiros com uma sofisticação harmónica inédita.
O sucesso no acompanhamento de Edu Lobo na vitoriosa “Ponteio”, no Terceiro Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, não foi acaso. Era o reconhecimento de um talento que transcendia géneros e fórmulas. O LP “Quarteto Novo” de 1967 permanece como testemunho de uma época em que a experimentação andava de mãos dadas com a popularidade.
A Aventura Americana e o Encontro com Miles Davis
A viagem aos Estados Unidos, em 1969, a convite de Flora Purim e Airto Moreira, marcou o início do reconhecimento internacional. Gravar com Miles Davis, ainda que sem os devidos créditos, foi simultaneamente honra e desapontamento. As composições “Nem Um Talvez” e “Igrejinha” chegaram ao público americano através do génio do jazz, mas a autoria ficou na sombra. Hermeto Pascoal, com a filosofia que o caracterizaria ao longo da vida, preferiu não dramatizar: “Ele era rico, não acredito que tenha se aproveitado de mim.“
Esta atitude perante os direitos autorais tornar-se-ia quase mística nos últimos anos. Em 2008, numa decisão que surpreendeu a indústria musical, cedeu gratuitamente os direitos de mais de 614 composições.
“O dinheiro é a desgraça do mundo“, declararia Hermeto Pascoal anos depois. “Quem ganha mais parece que tá com um câncer da alma.“
A Maturidade Artística e o Reconhecimento Mundial
Os anos 70 consolidaram o “método Hermeto”. Álbuns como “A Música Livre de Hermeto Pascoal” (1973), “Slaves Mass” (1976) e a trilogia com o grupo fixo: “Trindade” (1977), “Zabumbê-bum-á” (1978) e “Montreux ao vivo” (1979) estabeleceram um novo paradigma na música instrumental.
O Festival de Jazz de Montreux, em 1979, representa talvez o ponto alto da carreira internacional de Hermeto Pascoal. A ovação recebida pelo grupo e a participação no histórico concerto de Elis Regina, onde se uniram no palco para interpretar clássicos como “Rebento”, “Águas de Março” e “Asa Branca”, criaram um momento único na história da música brasileira. A química entre os dois artistas, registada no álbum “Elis Regina – Montreux Jazz Festival 1979”, permanece como testemunho de uma cumplicidade artística rara de se encontrar nos dias que correm.
O Calendário do Som: 366 Dias de Génio
Entre junho de 1996 e junho de 1997, Hermeto Pascoal empreendeu talvez o projecto mais ambicioso da sua carreira: compor uma música por dia, onde quer que estivesse. O resultado foi o “Calendário do Som”, 365 partituras manuscritas (incluindo uma para os nascidos em ano bissexto) que constituem uma espécie de diário musical de um génio em plena actividade e ebulição criativa.
Cada composição vem acompanhada de reflexões pessoais sobre amigos, família, o seu Fluminense, sempre terminando com a frase “Tudo de bom sempre“. Este projecto, publicado num livro de 414 páginas em 1999, representa um feito composicional extraordinário e um retrato íntimo de um artista que via música em cada momento da sua existência.
A Música dos Objectos e da Natureza
O que distinguia Hermeto de qualquer outro músico era a sua capacidade de transformar qualquer objecto em instrumento musical. Bules, brinquedos infantis, copos ou garrafas com água, tudo servia para criar sonoridades únicas. A famosa “Música da Lagoa”, onde os músicos tocam flautas imersos numa lagoa enquanto borbulham água, exemplifica esta abordagem revolucionária.
Esta relação com a natureza não era mero exotismo. Era uma filosofia musical profunda, enraizada na infância alagoana, onde os sons do campo, dos animais e das águas formaram o primeiro conservatório deste autodidata genial. Hermeto não imitava a natureza, dialogava com ela e incorporava-a na sua linguagem musical.
Os Últimos Anos e o Amor por Aline Morena
O encontro com Aline Morena, em 2002, numa oficina em Londrina, trouxe nova energia à vida pessoal e artística de Hermeto Pascoal. A diferença de idade não impediu uma parceria musical frutífera – o duo “Chimarrão com Rapadura” (gaúcha com alagoano) produziu trabalhos memoráveis, incluindo os CDs “Chimarrão com Rapadura” (2006) e “Bodas de Latão” (2010).
Esta fase tardia da carreira revelou um Hermeto mais íntimo, mas não menos experimental. Os projectos dos últimos anos, desde apresentações com orquestras sinfónicas até colaborações com big bands, demonstraram que a criatividade se mantinha intacta aos 80 anos.
O Grammy Latino e o Reconhecimento Tardio
Em 2019, aos 83 anos, Hermeto Pascoal recebeu finalmente o Grammy Latino de Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa por “Hermeto Pascoal e Sua Visão Original do Forró”. O prémio chegou tarde mas confirmou o que músicos de todo o mundo já sabiam: estavam perante um dos mais singulares e maiores génios da música do século XX.
Um Legado Inclassificável
Tentar classificar a música de Hermeto Pascoal é exercício fútil. Jazz brasileiro? Música experimental? Forró erudito? Todas estas etiquetas ficam pequenas para um artista que transcendeu géneros e fronteiras. A sua verdadeira classificação é simples: música pura, sem adjectivos nem limitações.
O legado de Hermeto Pascoal não se mede apenas em discos gravados ou prémios recebidos. Mede-se na libertação da criatividade musical de amarras comerciais e estéticas. Ensinou-nos que música existe em todo o lado, que a experimentação não é inimiga da beleza, que a técnica deve servir a imaginação e nunca o contrário.

Nos tempos actuais, em que a música se tornou cada vez mais formatada e previsível, a obra de Hermeto Pascoal surge como antídoto poderoso contra a mediocridade e um manancial de inspiração. Lembra-nos que ser artista é sobretudo ser livre: livre para experimentar, para falhar, para descobrir sons onde ninguém imagina que existam.
A morte de Hermeto Pascoal encerra um capítulo irrepetível da música brasileira e mundial. Mas a sua obra permanece viva, desafiando novas gerações de músicos a olhar para além do óbvio, a escutar para além do audível, a criar para além do possível.
“O Bruxo” partiu, mas a magia ficou. E continuará a inspirar todos aqueles que acreditam que a música é, antes de tudo, um acto de amor pela vida e pelos sons que a preenchem. Até Sempre Hermeto!
Instagram: @hermetopascoal
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