Duarte Ventura publica álbum de estreia “Blurred Image”

Duarte Ventura acaba de lançar o seu aguardado álbum de estreia, “Blurred Image”, sob a prestigiada chancela da editora catalã Fresh Sound New Talent. O disco, que chegou ao mercado no passado dia 27 de fevereiro, apresenta o quinteto do vibrafonista lisboeta numa proposta que Jorge Rossy (que integrou o trio de Brad Mehldau entre tantas outras participações) descreve como a música de uma geração que domina a complexidade sem nunca sacrificar a intensidade.

Podes ver e ouvir “Rift” de Duarte Ventura em baixo.

“Blurred Image”: O Vibrafone como Eixo de uma Respiração Colectiva

No panorama do jazz actual, o vibrafone ocupa um lugar singular, carregando uma herança histórica menos densa que o piano, e que permite explorações tímbricas mais específicas. Navegar por este registo é aceitar um convite para um labirinto de contrastes, onde a liderança é um conceito fluido onde cada instrumento se reveza. Em “Blurred Image”, Duarte Ventura evita conscientemente os caminhos mais previsíveis, posicionando o seu instrumento como o eixo gravitacional de um som colectivo que honra a textura e a intenção em detrimento da mera demonstração técnica.

O vibrafone de Duarte Ventura não se impõe pelo volume, mas por uma gravidade e playfulness que atrai o piano de Miguel Meirinhos, o saxofone de Miguel Valente e a base rítmica de José Almeida e Luís Possollo para um diálogo de uma coesão invulgar ao longo dos 10 temas que compõem “Blurred Image”. Existe uma inquietude latente na forma como a sofisticação harmónica e a dissonância se cruzam, desenhando temas onde o tempo parece elástico.

À agitação e sinuosidade de por exemplo “Blurry“, “Life of a Procrastinator” ou “To Break“, encontramos o seu contraponto em “#0154 (introduction)“, “In Motion” e “Menino (ode to innocence)“, temas estrategicamente colocados para criarem um espaço de respiração e contemplação, que contrastam com os restantes.

Em vez de um metrónomo estático, encontramos uma base que respira e se transmuta, articulando ciclos de tensão e relaxamento que servem de alicerce às texturas exploradas pelos diversos instrumentos, recorrendo a subdivisões rítmicas complexas e sem nunca perder a intenção emocional. A música de “Blurred Image” e do quinteto respira através de momentos, contrastes e figuras onde o inesperado é a única constante em cada compasso.

As notas de contracapa, assinadas por Jorge Rossy, sublinham uma maturidade invulgar para músicos tão jovens, destacando a facilidade e precisão com que navegam por subdivisões rítmicas complexas e grooves em constante mutação. Segundo Rossy, cada nota surge com um propósito claro, e uma sofisticação harmónica que balança complexidade com simplicidade, intelecto com emoção.

Duarte Ventura, capa do álbum "Blurred Image"
Duarte Ventura, capa do álbum “Blurred Image”

Alinhamento de “Blurred Image” de Duarte Ventura

  1. 0154 (introduction)
  2. Life of a Procrastinator
  3. Night Shift
  4. In Motion
  5. Views (from the ground floor)
  6. Blurry
  7. Playground
  8. Menino (ode to innocence)
  9. To Break
  10. Rift

Duarte Ventura, a Maturidade e o Reconhecimento do Prémio Jovens Músicos

A génese deste quinteto de Duarte Ventura remonta a 2022, quando nasceu como quarteto com Miguel Valente no saxofone alto, José Almeida no contrabaixo e Luís Possollo na bateria. A transformação em quinteto deu-se um ano mais tarde, com a inclusão do pianista Miguel Meirinhos, um passo que alargou as possibilidades harmónicas do grupo e consolidou a química que hoje se ouve no álbum. A produção de João Barradas e mistura+masterização de André Fernandes foram determinantes para capturar a energia crua do quinteto sem a domesticar (ou comprimir) excessivamente em estúdio.

A viabilização deste projecto deve-se, em grande parte, ao RTP Prémio Jovens Músicos. Ao vencer a categoria de jazz em 2023, o quinteto de Duarte Ventura garantiu não só o reconhecimento institucional, mas também os fundos necessários para fazer esta gravação. Duarte Ventura ostenta já um percurso sólido, tendo colaborado com nomes de peso como Peter Evans, John O’Gallagher e André Fernandes. A sua presença em palcos de referência, como a Fundação Calouste Gulbenkian e o Centro Cultural de Belém, culminou recentemente na estreia de “REPERIO”, uma obra encomendada pela Festa do Jazz.

Duarte Ventura e restante quinteto
Duarte Ventura e restante quinteto

Para concluir

“Blurred Image” de Duarte Ventura não se apresenta como uma estreia tímida enquanto quinteto em nome próprio, mas sim como uma proposta coesa e tecnicamente irrepreensível de quem já faz isto há muitos anos. O resultado final desenha o retrato de um compositor e instrumentista que pensa o jazz como uma linguagem pessoal em constante mudança, e um colectivo que abraça todo o seu potencial e arsenal sónico para nos entregar um trabalho de exímia qualidade musical e técnica.

O álbum está disponível em formato CD (podes comprar no Bandcamp, link em baixo) e em todas as plataformas digitais, não percas!

Instagram: @duartedasaventuras | Bandcamp: duarteventura

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Pedro Ribeiro
Escrito por

Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro é o fundador do musica.com.pt. Como músico e produtor conta com mais de 25 anos de experiência no mundo da música, tendo participado em projetos como Peeeedro, Moullinex, MAU, entre outros, e tocando em venues como Lux, Maus Hábitos, Plano B, Culturgest, Glasgow School of Arts, entre muitas outras salas e locais em Portugal e no estrangeiro. Compôs música para teatro (Jorge Fraga, Graeme Pulleyn, Teatro Viriato), dança contemporânea (Romulus Neagu, Peter Michael Dietz, Patrick Murys, Teatro Viriato), TV (RTP2) e várias rádios.

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