Jorge Palma: A Terra dos Sonhos Perdeu o Seu Poeta
Jorge Palma morreu esta segunda-feira à noite (21 de Setembro), aos 76 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória. A família e a agência do músico confirmaram a notícia esta terça-feira, numa mensagem partilhada no Instagram. Meio século de carreira, e uma voz completamente impossível de confundir com outra. A família recorda que o músico deixa “uma obra assinalável” e pede que seja lembrado “pelas suas canções e palavras”.
“É com profundo pesar e consternação que a família e agência de Jorge Palma informam a sua morte, ocorrida esta segunda-feira à noite, aos 76 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória.”
As cerimónias fúnebres de Jorge Palma já têm data e local definidos. O velório público decorreu na quarta-feira, 23 de setembro, na Voz do Operário, em Lisboa, entre as 15h00 e as 22h00, aberto a todos os que quiseram prestar a última homenagem. Já o cortejo fúnebre e a cremação estão marcados para esta quinta-feira, 24 de setembro: o cortejo sai da Voz do Operário às 15h00 em direção ao Cemitério do Alto de São João, onde a cremação será reservada apenas à família e amigos mais próximos. Os detalhes foram divulgados pela família nas redes sociais oficiais do músico e confirmados por vários órgãos de comunicação social.
Do Conservatório ao rock: os primeiros anos
Nascido em Lisboa a 4 de Junho de 1950, Jorge Palma começou a ter aulas de música aos seis anos. Entrou no Conservatório de Música de Lisboa aos dez. Mas a adolescência trouxe outra banda sonora: trocou o piano clássico por Elvis, Beatles, e pelos Stones. Chumbou no liceu e abandonou o piano formal. Aos dezassete anos foi para o Algarve tentar a sorte como músico e entrou para a banda Black Boys. De volta a Lisboa, estudava Ciências e tocava com os Sindicato, grupo de hard-rock que passou pela primeira edição do Festival de Vilar de Mouros, em 1971.
Em 1972 gravou o primeiro single em nome próprio, “The Nine Billion Names of God”, baseado no conto homónimo de Arthur C. Clarke. Sem editora que o representasse, foi bater à porta da Arnaldo Trindade, cujo director, Carlos Cruz, aceitou pagar a gravação. O pagamento, contava o próprio, chegou “na forma de uma máquina de lavar roupa e um frigorífico”. Nada de dinheiro.
A preparar player…
Em 1973, convocado para o serviço militar, preferiu deixar o país: voou de Lisboa a Londres e depois para Copenhaga, onde chegou a trabalhar num hotel. Regressou a Portugal em 1974, já depois do 25 de Abril, e começou a trabalhar como orquestrador. Em 1975 editou o primeiro álbum, “Com Uma Viagem na Palma da Mão”, que descreveria mais tarde como “muito influenciado pelo rock sinfónico, Génesis, Yes, etc.”.
Uma discografia de mais de cinco décadas
Ainda nessa década trocou Lisboa por Paris. Tocava nas ruas e no metro, sobretudo Bob Dylan, Paul Simon e Crosby, Stills & Nash. Voltou em 1977 para gravar o segundo álbum, “Té Já”, com Júlio Pereira e Rão Kyao entre os convidados, jazz e blues a puxarem o som, e uma primeira versão de “Bairro do Amor”, canção que só regressaria, renovada, doze anos depois.
Dois anos depois, em 1979, saiu o terceiro, “Qualquer Coisa Pá Música”. Voltou a Paris no início da década seguinte, desta vez com a segunda mulher, Graça Lamy, e só se fixou de vez em Portugal em 1982. Foi o ano de “Acto Contínuo”, o quarto disco, com “Portugal, Portugal” e “Picado Pelas Abelhas”.
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“Asas e Penas”, o seu quinto registo, saiu em 1984. Trazia “Estrela do Mar” e “Castor”, tema dedicado ao filho Vicente, nascido no ano anterior. Em 1985, “O Lado Errado da Noite”, sexto álbum com título tirado de um tema de Tom Waits, deu-lhe “Jeremias, O Fora-da-Lei” e “Deixa-me Rir”. O sétimo, “Quarto Minguante”, é de 1986. Três anos depois a EMI recusou o oitavo, “Bairro do Amor” (1989), disco que a crítica haveria de considerar um dos melhores da música portuguesa do século XX, com “Dá-me Lume”, “Frágil” e aquela nova versão do tema-título que vinha de “Té Já”.
Terminou o Curso Superior de Piano em 1990. No ano seguinte, sozinho ao piano, gravou “Só”, a revisitar clássicos das duas décadas anteriores num registo tão íntimo que ainda hoje passa por ser o mais pessoal de toda a carreira. Depois vieram os Palma’s Gang, com Zé Pedro e Kalu, dos Xutos & Pontapés, e Flak e Alex Cortez, dos Rádio Macau: um álbum ao vivo, em 1993. E os Rio Grande, ao lado de Tim, João Gil, Rui Veloso e Vitorino, cujo álbum de estreia, em 1996, foi um sucesso comercial. Tocou na Expo 98. Assinou a direcção musical da peça “Aos Que Nasceram Depois de Nós”.
A preparar player…
Voltou aos originais só em 2001, dez anos depois de “Só”, com “É Proibido Fumar” (também referido pelo título homónimo “Jorge Palma”). O tema conquistou o terceiro lugar do top nacional logo na primeira semana, e o Prémio José Afonso de melhor álbum português em 2002. Seguiram-se os registos “Norte” (2004) e “Voo Nocturno” (2007), este impulsionado pelo single “Encosta-te a Mim” e pela dupla platina que lhe trouxe uma nova geração de fans.
“Com Todo o Respeito”, de 2011, ganhou o Prémio Pedro Osório da Sociedade Portuguesa de Autores, prémio que se juntou aos dois Globos de Ouro de Melhor Intérprete que já tinha conquistado em 2008 e de 2012.
Os últimos anos e o reconhecimento
Celebrou os 70 anos, em 2020, com um concerto no Castelo de S. Jorge e orquestra de câmara sob a direcção do maestro Cesário Costa. Recebeu também a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Lisboa, e o então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou-o Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Em 2022, para os cinquenta anos de carreira, deu seis concertos de “Antologia”, quatro deles no Teatro Tivoli.
A preparar player…
O último álbum de originais, “Vida”, saiu em 2023. Deu nome a um tema que começara como o nome do grupo de WhatsApp entre Jorge Palma e os filhos. Foi esse tema que, em Maio de 2025, deu origem ao espectáculo “3 Palmas na Mão”, ao lado de Vicente, na banda do pai há cerca de vinte anos, e de Francisco, nascido em 1995.
Em Abril deste ano subiu ao Coliseu dos Recreios para o Prémio Carreira da 8.ª edição dos PLAY, homenageado antes por Tim, Sérgio Godinho, Marisa Liz e pelos próprios filhos a cantarem “Canção de Lisboa”, “Dá-me Lume”, “Bairro do Amor”, “Portugal, Portugal”, “Frágil” e “A Gente Vai Continuar”.
Fica uma discografia que atravessou o rock sinfónico dos anos 70, o jazz-blues de “Té Já”, o pop-rock dos anos 80, o piano confessional de “Só”. Sempre a soar a Jorge Palma e a mais ninguém. Como sempre. E vamos sentir a tua falta. Até sempre, Jorge!
Site Oficial: jorgepalma.pt | Instagram: @jorgepalmaoficial
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